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O Papa, a comédia e o drama

Personalidade central na história do cinema italiano das últimas décadas, Nanni Moretti regressa com um delicioso filme passado no Vaticano: "Temos Papa" é o retrato da dimensão muito humana de qualquer prática religiosa.

O Papa, a comédia e o drama
Michel Piccoli na personagem do Papa: afinal, somos todos humanos
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 O Papa, a comédia e o drama
Habemus Papam - Temos Papa Após a morte do Papa, o Conclave reúne-se a eleger o seu sucessor, mas até que se veja fumo branco são necessárias várias votações. O novo cardinal eleito não parece apto a suportar o peso das responsabilidades a que o lugar o obriga. Angustiado, deprimido e com receio de falhar, a solução mais evidente parecer ser a de arranjar um terapeuta para este novo Papa…

Quer queiramos, quer não, hoje em dia a percepção dos filmes é muito marcada pelo modo como são "antecipados". Por vezes, isso faz com que os filmes não sejam apreciados pelo que são, mas pelo que "deviam ser"... Um pouco como no mundo do futebol: quando um "grande" perde com uma equipa "pequena", especula-se até ao infinito sobre o falhanço do mais poderoso, nada se dizendo sobre os méritos de quem, efectivamente, ganhou.

Aconteceu algo desse género, em Cannes/2011, quando na secção competitiva passou "Tempos Papa" ("Habemus Papam"), de Nanni Moretti. Dir-se-ia que a marca de "contestação" com que, correntemente, é descrito o universo do autor de "Palombella Rossa" (1989) e "O Caimão" (2006) só se podia traduzir numa direcção: se "Temos Papa" era um filme passado no Vaticano, então estava condenado a ser um panfleto contra a religião católica e as suas instituições...

Não sejamos ingénuos. É óbvio que "Temos Papa" não é um filme de exaltação da religião e das suas práticas, muito menos um retrato promocional do Vaticano. Mas já é tempo de pensarmos de forma adulta, sobretudo não esquecendo que o mundo não se reduz a "prós" e "contras"... Dito de outro modo: Moretti filma, não a dimensão simbólica da religião, mas sim as suas ressonâncias num único indivíduo. E esse indivíduo é... o Papa!

"Temos Papa" coloca em cena as angústias de um cardeal inesperadamente eleito pelos seus pares como o novo Papa. Apesar de honrado com a confiança que nele é depositada, mostra-se incapaz de lidar com o pânico que a situação lhe provoca. Mais do que isso: convocado para uma missão com selo divino, ele não pode deixar de confessar o medo muito humano que as suas novas responsabilidades lhe suscitam.

Moretti filma tudo isso, antes do mais através da serenidade que o extraordinário Michel Piccoli investe na personagem do Papa: sentimo-nos, afinal, cúmplices dos seus temores, já que, independentemente das suas componentes transcendentais, nele encontramos a simples dúvida de quem não sabe se tem dotes (humanos) para abarcar a grandeza da chamada (divina) que o convoca.

Além do mais, Moretti introduz uma deliciosa nota de distanciamento através da personagem que ele próprio interpreta. Desta vez, o cineasta não está no centro do elenco, assumindo a figura do psicanalista contratado para dialogar com o Papa e tentar compreender as origens do seu comportamento. Resultado: "Temos Papa" é uma quase-comédia, um drama-em-suspenso que nos envolve pelas singulares emoções que o atravessam. Em boa verdade, sublinhar que somos todos humanos pode ser o mais radical dos discursos políticos.

Crítica de João Lopes actualizado às 14:01 - 24 novembro '11
publicado 13:32 - 24 novembro '11

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