O bem e o mal, a verdade e a mentira

Na sua 31ª longa-metragem, Manoel de Oliveira filma o poder desagregador do dinheiro: "O Gebo e a Sombra" adapta a peça homónima de Raul Brandão, com um elenco que inclui Claudia Cardinale e e Jeanne Moreau.

O bem e o mal, a verdade e a mentira
Jeanne Moreau, Michael Lonsdale, Luís Miguel Cintra e Claudia Cardinale: sob o olhar de Oliveira
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 O bem e o mal, a verdade e a mentira
O Gebo e a Sombra Apesar da idade e do cansaço, Gebo persegue a sua actividade de contabilista para sustentar a família. Vive com a mulher, Doroteia, e a nora, Sofia, mas é a ausência do filho, João, que os preocupa. Gebo parece esconder algo em relação a isso, em particular a Doroteia, que vive na espera ansiosa de rever o seu filho. Sofia, do seu lado, espera também o regresso do marido, ao mesmo tempo que o ...

O que é (o que pode ser) um filme falado em francês a partir de um texto teatral de Raul Brandão? O que é (o que pode ser) um filme que reune actores portugueses (Luís Miguel Cintra, Leonor Silveira, Ricardo Trêpa) e não portugueses (Michael Lonsdale, Claudia Cardinale, Jeanne Moreau)? O que é (o que pode ser) um filme fechado na teatralidade do seu espaço, a ponto de decorrer quase todo no cenário claustrofóbico de uma sala?

Pois bem: pode ser (é por certo) um filme-filme, quer dizer, um objecto de cinema, não um exercício vendido a qualquer retórica televisiva. É, acima de tudo, um filme em que a intensidade das palavras serve para expor as clivagens mais fundas dos destinos humanos, aí onde os valores e as crenças, a coesão social e a unidade familiar começam a vacilar.

"O Gebo e a Sombra" é a 31ª longa-metragem de Manoel de Oliveira. E o mínimo que se pode dizer  é que, na sua depuração formal, conserva e, de algum modo, intensifica a fidelidade do cineasta a alguns princípios radicais: primeiro, que o naturalismo atrai os fantasmas; segundo, que as palavras são mecanismos de revelação, tanto quanto de ocultação; enfim, que a identidade de cada indivíduo é um aparato instável e frágil que faz com que cada um oscile sempre entre o bem e o mal, a verdade e a mentira.

Em boa verdade, o teatro nunca foi estranho ao trajecto de Oliveira desde que, em "Acto da Primavera" (1963), filmou uma representação popular da Paixão de Cristo. Não porque, como diz o lugar-comum demagógico, isso encerre o seu cinema numa mera "ilustração" do texto escrito... Basta observar a paciente arquitectura de montagem de "O Gebo e a Sombra" para compreender a serena musicalidade das formas narrativas de Oliveira.

Acontece que, para Oliveira, o teatro não é o contrário da vida, mas uma espécie de recorte interior do vivido: como se, nas relações com os outros, cada um de nós não fosse mais do que a personagem incauta de uma ficção cujo encenador está ausente.

Certamente não por acaso, ao retomar o texto de Raul Brandão, Oliveira sublinha o que nele decorre de uma desencantada visão do dinheiro e dos seus poderes de desagregação do factor humano. Nessa medida, "O Gebo e a Sombra" é um objecto que apela às mais variadas ressonâncias simbólicas. Por isso mesmo, pelo arrojo temático e pela sofisticação formal, este é um filme totalmente envolvido com as convulsões do seu/nosso presente.

Crítica de João Lopes
publicado 23:21 - 10 outubro '12

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