O cinema dentro do cinema

"Sem Destino" marca o reencontro com Monte Hellman, um veterano da produção americana, desta vez filmando os conflitos entre a vida vivida e a vida filmada. Um acontecimento.

O cinema dentro do cinema
Nos bastidores do cinema: "Sem Destino" entre a vida vivida e a ficção imaginada
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 O cinema dentro do cinema
Road to Nowhere - Sem destino O jovem cineasta Mitchell Haven encontrou material para fazer a sua próxima obra-prima: a história verídica de um crime que envolve a jovem e bonita Velma Duran e o seu amante mais velho, o político Rafe Tashen, envolvidos num fraudulento esquema de subornos que termina com o dramático suicídio destes amantes amaldiçoados. Mitchell apaixona-se pela sua história e também pela bela Velma Duran...

Como definir o novo filme do veterano Monte Hellman? "Sem Destino" (título original: "Road to Nowhere") é uma história de amor? Ou uma história sobre... uma história de amor? Em boa verdade, ambas as coisas: vogamos nos bastidores do cinema, numa zona em que, por uma espécie de suave assombramento, se vai instalando a sensação de que todos os factos vividos só o são porque, de algum modo, nascem de alguma forma de ficção.

É um filme moderníssimo, e fascinante no seu modernismo. Trata-se, afinal, de questionar os limites do próprio trabalho cinematográfico, num mundo em que a crença nas coisas reais está claramente posta em causa pela vertigem das ilusões virtuais. Para mais, Hellman transforma as suas máquinas digitais em personagens que, por assim dizer, discutem com os humanos a verdade daquilo que vemos e ouvimos.

Curiosamente, "Sem Destino" está longe de ser estranho a toda uma herança plural, de abordagem do cinema-dentro-do-cinema. Hellman retoma, aqui, os caminhos labirínticos de grandes clássicos como "Cativos do Mal/The Bad and the Beautiful" (Vincente Minnelli, 1953) ou "Assim Nasce uma Estrela/A Star Is Born" (George Cukor, 1954): para além das inevitáveis diferenças, ontem como hoje, trata-se de filmar o cinema como um revelador das relações humanas.

Feito com meios austeros, com um elenco notável liderado pela magnífica Shannyn Sossamon, "Sem Destino" confirma a lógica independente do labor de Monte Hellman. Mesmo quando trabalhou com os grandes estúdios (lembremos o clássico "Two-Lane Blacktop", de 1971), ele manteve-se como um criador obstinado e individualista, numa palavra, um verdadeiro maverick.

Crítica de João Lopes
publicado 01:20 - 08 abril '11

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