Crítica: "A Solidão dos Números Primos"  

O corpo é que paga

O livro "A Solidão dos Números Primos", de Paolo Giordano, é um best-seller escrito em parceria com o realizador Saverio Costanzo que deu corpos aos dois jovens fechados para o mundo por traumas de infância.

O corpo é que paga
Luca Marinelli e Alba Rohrwacher, os números primos do drama de Saverio Costanzo
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Trailer/Cartaz/Sinopse:
 O corpo é que paga
A Solidão dos Números Primos Turim. Alice e Mattia vivem duas histórias tão próximas quanto distantes. Duas crianças marcadas por um momento, um trauma profundo que os marca e que transportam ao longo do tempo. Dois números primos que partilham, sem saber, momentos de ternura, tristeza, desconsolo e alguma esperança. A matemática como uma metáfora para um romance que tanto de delicado como de dramático. CURIOSIDADES: A ...

Os números primos são especiais e remetem para a metáfora do filme, jovens diferentes, virados para si próprios, fechados para o mundo e para os outros.

Alice e Matias os protagonistas da história não escolheram ser assim, mas sofrem os efeitos de acontecimentos traumáticos durante a infância e reagem sobretudo com o corpo.

Alice sofre de distúrbios alimentares, Matias faz golpes no corpo para se castigar de um erro do passado. O realizador Saverio Costanzo relaciona os dois jovens com os males de uma geração, a dos anos 80, retratada no filme e no livro, que perdeu o campo político de acção na rua e à qual resta apenas o corpo como ferramenta de protesto.

Os dois reconhecem-se como especiais e desde o momento em que se cruzam os seus caminhos não voltam a separar-se, embora nunca se juntem. São anti heróis para o cinema, deprimidos, deprimentes, tristes e solitários, e por isso são também personagens arriscadas e ao mesmo tempo belas e intrigantes.

O filme percorre vinte anos da vida dos dois, por vezes em excesso de carga, acentuando os traumas e fixando as duas personagens no tal mundo à parte. A narrativa não linear, funciona bem para quem não conhece o livro que fica suspenso na explicação dos acontecimentos do passado doloroso das duas personagens.

"A Solidão dos Números Primos' é um filme que não faz concessões ao espectador, aprofunda as feridas e abre crateras nas dores, é declaradamente triste e deprimente. Um filme de gente que sofre, que não tem salvação nem a procura, mas que à sua maneira encontra amor.

A carga dramática do filme pode ser por vezes um pouco asfixiante, não será uma escolha para todos os gostos, o que o torna um objecto corajoso. Saverio Costanzo dá corpo à dor e arrisca mostrar o que não se vê: sofrimento, traumas e tristeza generalizada de quem não desistiu do caminho, e se limita a sobreviver.

Crítica de Lara Marques Pereira actualizado às 01:06 - 03 maio '11
publicado 11:29 - 02 maio '11

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