Estreias  

O espanto de ser espectador

Edgar Pêra quer saber o que somos, e como somos, face a um ecrã de cinema — daí que "O Espectador Espantado" comece como um quase documentário para dar lugar a uma aventura surreal feita de imagens e sons.

O espanto de ser espectador
Edgar Pêra filma as nossas singulares relações com o ecrã da sala escura
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 O espanto de ser espectador
O Espectador Espantado O que é mais cinema: ver o "Citizen Kane" num telemóvel ou ver um jogo de futebol projectado numa sala de cinema? O que é o Cinema da Incerteza? Quantos tipos de espanto existem? O Medo e a Crença precedem o Espanto? Quais são os direitos e deveres do espectador? Os filmes de ensaio são manifestos contra o voyeurismo? Os espectadores deveriam ser pagos? O que espanta hoje um espectador?

A mais velha — e também mais perene — interrogação cinéfila pressupõe a ideia de que o cinema nunca se aquieta numa definição definitiva: o que é o cinema? Muitas vezes esquecemo-nos de lhe ligar uma outra, porventura menos popular, mas não menos essencial. A saber: o que é ser um espectador de cinema?

Apetece dizer que a resposta implícita no filme "O Espectador Espantado", de Edgar Pêra, consiste em dizer que o espectador é... aquele que se espanta. Como? Reconhecendo no filme que tem à sua frente um acontecimento que integra os parâmetros da vida vivida, ao mesmo tempo que celebra a possibilidade de uma vida imaginada, porventura imaginária.

Edgar Pêra começa por propor aquilo que talvez possamos designar como um inventário documental. Através de uma série de testemunhos (Eduardo Lourenço, Augusto M. Seabra, Laura Mulvey, Guy Maddin, Toby Miller, etc.), ficamos a conhecer as singularidades subjectivas da relação com o ecrã da sala escura. Ao mesmo tempo, "O Espectador Espantado" vai evoluindo como uma aventura surreal pelas próprias possibilidades de figuração/manipulação do ecrã.

Daí que o resultado tenha tanto de contundente como de desconcertante. Este é um filme que escolhe formular perguntas, evitando cicatrizar respostas em torno de tais perguntas. Ou ainda: uma aventura pelas formas de imagens e sons que nos leva a sentir o cinema como um fascinante misto de realidade e irrealismo, amostragem e delírio — um filme, enfim, para, em plena idade digital, discutirmos o gosto primitivo dos filmes.

Crítica de João Lopes
publicado 02:12 - 15 setembro '18

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