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O futuro é já hoje

Steven Soderbergh continua a ser um cineasta com o gosto da experimentação: "Contágio" tem o tom de uma típica ficção científica mais ou menos futurista, mas o seu tempo confunde-se com o nosso presente.

O futuro é já hoje
Marion Cotillard nos cenários ameaçados de "Contágio": do futuro para o presente
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 O futuro é já hoje
Contágio Depois de uma viagem de negócios a Hong Kong, Beth Emhoff (Gwyneth Paltrow) morre subitamente do que parece ser uma gripe comum. Nos dias que se seguem começam a surgir vários casos idênticos, com os mesmos sintomas, incluindo o filho de Beth e Mitch (Matt Damon), que também acaba por morrer. A comunidade científica empenha-se em travar aquilo que ameaça ser uma pandemia fatal, mas não consegue ...
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De que falamos quando falamos de ficção científica? Quase sempre de algo, mais ou menos desconhecido ou inquietante, que projectamos num futuro mais ou menos distante ou, pelo menos, claramente "alternativo".

Mas há também uma ficção científica que se enraíza, não em qualquer forma de "futurismo", mas sim numa espécie de exacerbação dos dados do presente. Dir-se-ia que sentimos o futuro a desagregar-se, mas dentro do nosso próprio tempo.

"Contágio" é um filme que nasce dessa calculada ambiguidade. A saber: uma história de uma súbita ameaça viral que coloca em causa a sobrevivência da própria raça humana. Mais do que isso: os sintomas dessa ameaça vão-nos fazendo ver que, de facto, tudo se globalizou na nossa aldeia, incluindo as doenças.

Steven Soderbergh tem a arte e o engenho para tratar tudo isso, não num tom especulativo, mas como uma possibilidade real. Há em "Contágio" um realismo à flor da pele que se enraiza num método quase documental de filmagem, embora obviamente sustentado numa laboriosa ficção, aliás servida por um leque invulgar de actores que inclui Gwyneth Paltrow, Matt Damon, Kate Winslet, Jude Law e Marion Cotillard.

Depois de "The Girlfriend Experience/Confissões de uma Namorada de Serviço" e "O Delator" (ambos de 2009), Soderbergh prossegue, assim, uma trajectória exemplar que o situa numa espécie de terreno vago entre diversos registos de produção: por um lado, continua a trabalhar com os grandes estúdios, explorando formas de espectáculo de raiz eminentemente popular; por outro lado, nunca perdeu o sentido experimental do cinema independente onde começou, já lá vão mais de 20 anos, com "Sexo, Mentiras e Video" (1989).

Crítica de João Lopes
publicado 02:52 - 13 outubro '11

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