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O humor contra o drama

Será que Frances McDormand está prisioneira da sua própria "imagem de marca"? A pergunta justifica-se face a "Três Cartazes à Beira da Estrada", filme escrito e dirigido por Martin McDonagh que não consegue aproveitar as suas próprias potencialidades dramáticas.

O humor contra o drama
Sam Rockwell e Frances McDormand — actores à procura das suas personagens
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 O humor contra o drama
Três Cartazes à Beira da Estrada Depois de meses sem ser encontrado o culpado no caso de homicídio da sua filha, Mildred Hayes (vencedora do Oscar® Frances McDormand) faz uma jogada ousada ao alugar três cartazes à entrada da cidade com uma mensagem polémica dirigida a William Willoughby (nomeado para Oscar® Woody Harrelson ), o respeitado chefe de polícia da cidade. Mas quando o seu adjunto Dixon (Sam Rockwell), um menino da ...

Que fazer quando uma carreira de interpretação parece dominada pela "repetição" de modelos já experimentados? A pergunta justifica-se, agora, a propósito de Frances McDormand, de tal modo a sua personagem de "Fargo" (1996), mais ou menos paródica e pitoresca, parece continuar a assombrar o seu trajecto. Não que não haja, de então para cá, outros brilhantes momentos na sua filmografia — lembremos apenas "Quase Famosos" (2000), de Cameron Crowe...

Em boa verdade, se ela é o exemplo inevitavelmente mais visível das limitações de "Três Cartazes à Beira da Estrada", os problemas decorrem da própria organização interna do filme — podíamos, aliás, acrescentar a tal observação o reconhecimento dos desequilíbrios de representação encontrados por outros intérpretes como Woody Harrelson e, sobretudo, Sam Rockwell (num registo caricatural francamente inconsistente). Dir-se-ia que o realizador Marin McDonagh, também responsável pelo argumento, não acreditou nas virtudes desse mesmo argumento.

Talvez possamos definir "Três Cartazes à Beira da Estrada" como um herdeiro tardio de algum grande cinema americano dos anos 60, apostado em dar conta das vivências mais ou menos atribuladas de uma América profunda, inquietante e esquecida — "A Flor à Beira do Pântano" (1966), de Sydney Pollack, com Natalie Wood e Robert Redford, poderá servir de padrão.

O certo é que, ao contar a história de uma mulher (McDormand) desesperada pela passividade da polícia na investigação do assassinato da sua filha, McDonagh vai fazendo deslizar o seu drama para domínios anedóticos que desmancham todas as intensidades da sua história. Como se tivesse receio de ser sério e necessitasse do "humor" para estar mais na moda...

É pena porque, de facto, há momentos (veja-se a cena de McDormand no restaurante, com a personagem do ex-marido, interpretado por John Hawkes) em que se compreende que McDonagh tinha matéria mais que suficiente para elaborar um retrato realmente subtil de personagens plenas de nuances... É pena, sobretudo, que um filme que recorda uma tão bela tradição narrativa de Hollywood fique muito aquém das suas potencialidades dramáticas.

Crítica de João Lopes actualizado às 23:57 - 11 janeiro '18
publicado 23:49 - 11 janeiro '18

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