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O impasse de Jennifer Lawrence

Jennifer Lawrence reaparece na personagem de uma bailarina mobilizada como elemento da espionagem russa: "A Agente Vermelha" imita modelos masculinos do espectáculo, repetindo os seus efeitos mais rotineiros.

O impasse de Jennifer Lawrence
Jennifer Lawrence em vermelho — voltámos à Guerra Fria?
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Algumas notícias soltas têm sugerido a hipótese de Jennifer Lawrence parar por algum tempo para repensar a evolução da sua carreira... Seja como for, parece que a actriz da série "The Hunger Games", já oscarizada com "Guia para um Final Feliz" (2012), de David O. Russell, pode ter vantagens em tomar tal atitude.

Não está em causa, entenda-se, o seu imenso talento que, aliás, conhecemos desde "Despojos de Inverno" (2010), de Debra Granik, luminoso exemplo da melhor produção independente vinda dos EUA. Acontece que o seu novo filme, "A Agente Vermelha", dirigido por Francis Lawrence (o mesmo dos episódios finais de "The Hunger Games"), parece corresponder a uma pesquisa vã de novas "alternativas" de composição.


Que dizer deste impasse? Ao assumir o papel de uma bailarina russa mobilizada para perigosas missões de espionagem, Lawrence parece empenhada em enfrentar um daqueles desafios simplistas, à beira do irrelevante... A saber: como interpretar um modelo de personagem que, desde os tempos áureos de 007, pertence a intérpretes masculinos?

Dir-se-á: o desafio é mesmo esse, ocupar no feminino um lugar que a convenção impõe como masculino. Mas qual a pertinência artística de um projecto que repete os lugares-comuns do modelo com que tenta rivalizar? Fica um sinal desconcertante que a história talvez venha a registar como sintomático da "era Trump": "A Agente Vermelha" recupera as convenções mais esquemáticas de alguns filmes de propaganda do tempo da Guerra Fria... Ou, então, como sugerem alguns analistas da geopolítica, estamos a entrar noutra Guerra Fria.

Crítica de João Lopes actualizado às 23:49 - 02 março '18
publicado 23:46 - 02 março '18

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