Estreia  

O melodrama virado do avesso

Fernando Meirelles, o cineasta brasileiro de "Cidade de Deus", regressa com um filme sobre personagens à deriva no mundo contemporâneo: o drama acontece, mesmo quando se desconhecem entre si.

O melodrama virado do avesso
Jude Law e Rachel Weisz, em "360": um cinema à flor da pele
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 O melodrama virado do avesso
360 - A Vida é um Círculo Perfeito 360 é um emocionante, moderno e elegante caleidoscópio de relações e ligações de amor que une personagens de diferentes cidades e países num intenso, surpreendente e profundo conto da vida romântica no século 21. Com início em Viena, o filme passa maravilhosamente por Paris, Londres, Bratislava, Rio, Denver e Phoenix numa narrativa única e fascinante. Uma simples decisão de um homem – de ...

No filme "360", o casal interpretado por Jude Law e Rachel Weisz vive um estranho processo de dupla traição... Mas será que cada um sabe do comportamento do outro? O filme de Fernando Meirelles ("Cidade de Deus") é, afinal, sobre esse saber/não saber e sobre a sua bizarra circularidade (360 graus). Talvez como diz o subtítulo português, com involuntária ironia: "A Vida É um Círculo Perfeito".

"360" não correu muito bem nas salas dos EUA e, talvez por isso, tem estreado na Europa algo desamparado. E é pena. Sobretudo porque Meirelles, mais uma vez a filmar fora do contexto específico da produção brasileira, consegue preservar uma subtil dimensão humana que, por assim dizer, vira o melodrama do avesso: as personagens vivem assombradas pela sua imaginação, tanto quanto pelos enigmas do seu desejo.

Para a eficácia deste cinema intimista, à flor da pele, volta a ser essencial o rigor da direcção de actores. Além dos nomes citados, surgem ainda, por exemplo, a eslovaca Lucia Siposová, o inglês Anthony Hopkins, a brasileira Maria Flor e o francês Jamel Debbouze. Meirelles sabe colocá-los em cena sem nunca os perder em qualquer estereótipo dramático ou "turístico".

Escrito por Peter Morgan (autor do argumento de "A Rainha", de Stephen Frears), "360" tem como inspiração remota a peça "Reigen", de Arthur Schnitzler, que deu origem ao clássico "La Ronde", de Max Ophuls, rodado em 1950. Embora, agora, tudo se passe no século XXI, prevalece o sugestivo método dramatúrgico: as personagens podem desconhecer-se, mas a acção de cada uma ecoa sempre, de algum modo, na existência das outras. Somos, assim, figurantes de histórias que desconhecemos.

Crítica de João Lopes
publicado 03:37 - 27 agosto '12

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