Estreia  

O sorriso da mulher morta

Manoel de Oliveira escreveu o argumento de "O Estranho Caso de Angélica" em 1954, mas só conseguiu filmá-lo em 2010... Valeu a pena esperar.

O sorriso da mulher morta
"Angélica" ou a ambivalência das imagens
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Trailer/Cartaz/Sinopse:
 O sorriso da mulher morta
O Estranho Caso de Angélica Isaac (Ricardo Trêpa) não sabia, mas naquela noite a sua vida ia mudar. O jovem judeu veio para a zona do Douro a fugir ao massacre da II Guerra Mundial. Fotógrafo de profissão, estava hospedado na Régua, na pensão da D. Rosa, quando foi chamado de urgência por uma abastada família para tirar o último retrato da filha, Angélica (Pilar López de Ayala), que morrera logo após o seu casamento. Isaac ...
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Que faz um cineasta com um argumento que não consegue filmar? Provavelmente, desiste. Ou persiste. E espera algum tempo, até conseguir condições para o concretizar. Foi isso que fez Manoel de Oliveira com "O Estranho Caso de Angélica"... Com esse pormenor nada secundário de ter esperado 56 anos (o argumento data de 1954) para o filmar.

Compreende-se a obstinação de Oliveira. Angélica é, por certo, uma das personagens mais radicais de toda a sua filmografia, quanto mais não seja porque é uma morta que, ao ser fotografada, sorri...

Comédia? Sim, até certo ponto, quanto mais não seja porque Oliveira sempre filmou a "transcendência" com uma distância mais ou menos irónica (lembremos o caso admirável de "Benilde ou a Virgem Mãe", lançado em 1975). Mas também insólita convivência com o drama, já que, ainda e sempre, por aqui perpassam os sobressaltos do olhar amoroso, dos seus desejos sem medida.

"O Estranho Caso de Angélica" consegue, assim, a proeza de apelar a uma modernidade crítica, empenhada em discutir a ambivalência das imagens, ao mesmo tempo que emprega e manipula essas mesmas imagens com a alegria pura de quem redescobre os sabores primitivos do cinema mudo. Oliveira discípulo de Méliès? Sempre.

Crítica de João Lopes
publicado 22:59 - 28 abril '11

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