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O valor primordial do olhar

Grande filme vindo da Alemanha, inspirando-se na vida do pintor Gerhard Richter na Alemanha de Leste: a biografia intimista cruza-se com a evocação histórica, confirmando Florian Henckle von Donnersmarck como um cineasta tocado pela herança clássica.

O valor primordial do olhar
Cai Cohrs no papel do futuro pintor — olhar, nunca deixar de olhar
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 O valor primordial do olhar
Nunca Deixes de Olhar: A arte não tem identidade O artista Kurt Barnert conseguiu fugir do Leste e agora vive na Alemanha Ocidental, mas continua a ser atormentado pelas recordações da sua infância, primeiro sob o regime nazi e depois na República Democrática Alemã.

O pequeno Kurt Barnert (Cai Cohrs) aprende a olhar graças à atenção e carinho que recebe da sua tia Elizabeth. No contexto hiper-vigiado da Alemanha de Leste nas décadas de 50/60, manter essa obstinação do olhar é mais do que uma teimosia afectiva — é um gesto político. "Nunca Deixes de Olhar" é um filme sobre isso mesmo: o labor incessante do olhar conduzido pelo prazer da liberdade criativa.

Inspirado na vida de um dos maiores pintores contemporâneos, o alemão Gerhard Richter (86 anos), eis um precioso objecto de cinema. Antes do mais, pela sua raridade — não é todos os dias, de facto, que a verdade muito física dos corpos e dos gestos (logo, também dos actores) preenche o ecrã, resistindo à normalização imposta pela digitalização pueril de super-heróis e afins...

Florian Henckle van Donnersmark não é estranho a este tipo de empreendimento. O seu "As Vidas dos Outros" (2006) evocava as acções de vigilância e controle da Stasi, a polícia política da Alemanha de Leste, num mesmo registo de fresco histórico que nos remetia para um classicismo de sofisticada elaboração, alheio à facilidade de qualquer moda — com ele ganhou um Oscar de melhor filme estrangeiro ("Nunca Deixes de Olhar" está bem encaminhado para ser um dos nomeados deste ano).

O valor primordial do olhar é algo que vai ser decisivo na existência de Kurt e, em particular, na sua passagem à idade adulta. Donnersmarck sabe filmar esse processo através de um dispositivo de raiz melodramática em que a acção humana desempenha um papel fulcral.

E atenção: quando falamos em acção, a palavra não remete para arranha-céus a cair através do sopro de um mutante de outra galáxia... A noção de que "acção" é "agitação" não passa de um método de deseducação que continua a destruir aquilo que Martin Scorsese chamou, e muito bem, literacia visual.

Observem-se as sequências em que Kurt, já adulto, interpretado pelo talentoso Tom Schilling, pesquisa aquela que ficará como uma marca pictórica pessoal — são um magnífico exemplo dessa genuína acção. Trata-se de seguir o labor de um olhar e uma mente, face ao silêncio desafiante da tela — grande pintura, grande cinema.

Crítica de João Lopes
publicado 00:26 - 19 janeiro '19

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