Os Óscares da Netflix... e de Spielberg
Dean-Charles Chapman, Sam Mendes e George MacKay — rodagem de "1917"

Hollywood  

Os Óscares da Netflix... e de Spielberg

Independentemente de quem vier a arrebatar os principais Óscares referentes à produção de 2019, as respectivas nomeações envolvem um sugestivo leque de sugestões — sobre as plataformas de streaming, Hollywood e... a Ásia.

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A linguagem fria dos números? Pois bem, sejam quais forem as voltas que dermos ou quisermos dar, aí está: a Netflix consegue um total de 24 nomeações para os Óscares (a atribuir no dia 9 de Fevereiro), colocando dois títulos — "O Irlandês" e "Marriage Story" — entre os candidatos a melhor filme do ano.

Evitemos por isso as dicotomias simplistas. Não se trata de saber se o futuro do cinema vai ser nas salas OU nas plataformas de streaming — em boa verdade, tudo vai acontecer nas salas E nas plataformas de streaming.

A diferença está longe de ser meramente gramatical — atravessamos uma fascinante crise de produção. Porquê fascinante? Porque a noção de crise está associada a uma hipótese de tensão & criatividade que um filme como "O Irlandês" pode simbolizar de modo contundente: depois de uma década a tentar montar o projecto com um dos grandes estúdios clássicos de Hollywood, Martin Scorsese conseguiu 159 milhões de dólares de financiamento e total liberdade criativa. Como? Com a Netflix [video].


A resistência da Netflix em negociar formas mais abertas e, sobretudo, mais amplas de difusão dos seus filmes continua a ser um drama interno a esta conjuntura. Pode mesmo relativizar o reconhecimento das suas proezas de produção pelos mais de oito mil membros da Academia de Hollywood. Sem retirar mérito a "Marriage Story", de Noah Baumbach, digamo-lo com todas as letras: a recusa em estrear o filme de Scorsese em muitos mercados (incluindo o português) será sempre vista como um escândalo cinéfilo.

Sublinhemos, por isso, a posição de destaque de um objecto tão especial como "1917", uma verdadeira epopeia assinada por Sam Mendes. Por três razões muito específicas:
1. A sua evocação de um episódio da Primeira Guerra Mundial possui uma energia emocional e um simbolismo temático que lhe conferem uma dimensão universal.
2. A sua concretização técnica envolve um aparato de tal modo excepcional que o transforma num reflexo exemplar da própria evolução industrial do cinema neste século XXI [video sobre a rodagem].


3. Enfim, o facto de a empresa indiana Reliance Entertainment ser uma das entidades produtoras do projecto surge como um significativo dado conjuntural, uma vez que para a grande produção cinematográfica (leia-se: HOLLYWOOD), os países asiáticos passaram a ser cada vez mais decisivos como elementos de produção e mercados de difusão.

Daí um reconhecimento insólito, mas objectivo: um dos grandes vencedores destas nomeações chama-se Steven Spielberg. Porquê? Porque o seu estúdio DreamWorks e a sua produtora de origem, a "velhinha" Amblin (criada em 1981), montaram o projecto de "1917" com a Reliance.

Mais do que isso, convém não reduzir a história destas coisas ao ruído das manchetes mais preguiçosas. Nada disto é circunstancial, muito menos impulsivo. Ou seja: Spielberg assinou um protocolo de colaboração com a Reliance a 15 de Julho de 2009. Não é gralha: 2009 é uma data que nos ajuda a compreender "1917".

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publicado 23:14 - 13 janeiro '20

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