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"Uma Abelha na Chuva": Laura Soveral no espelho de Fernando Lopes
Memória
Português, cineasta
Fernando Lopes foi um retratista de uma mágoa muito nossa, vivida através de histórias frequentemente enraizadas no gosto documental: autor de "Belarmino" e "Uma Abelha na Chuva", Fernando Lopes filmou o ser (ou não ser) português.
Laura Soveral ao espelho em "Uma Abelha na Chuva" (1972). Ou ainda: uma mulher e a sua imagem, num jogo de coincidências e diferenças que pode resumir o fascínio e a inacessibilidade do feminino.
Provavelmente, Fernando Lopes nunca filmou outra coisa, mesmo quando os seus heróis masculinos nos surgem como aventureiros de uma aventura que os excede: Belarmino Fragoso, em "Belarmino" (1964), não é esse português com um sonho (ser um pugilista de dimensão internacional) maior que o seu próprio país? E o ficar cá dentro não será a marca cruel, paradoxalmente terna, de uma utopia suspensa no tempo?
Com a morte de Fernando Lopes, perdemos um cineasta que soube, como poucos, colocar em cena (isto é, contar histórias sobre) essa nossa mágoa de sermos maiores, ou mais ambiciosos, do que o cenário que nos coube. E também o modo como, entre a amargura ("Nós por Cá Todos Bem", 1978) e o burlesco ("Crónica dos Bons Malandros", 1984), isso tudo se diz de modo diverso através dos homens e das mulheres. "O Delfim" (2002), segundo José Cardoso Pires, simboliza as convulsões de tudo isso.
Nesta perspectiva, podemos também dizer que Fernando Lopes foi, até certo ponto, um autor guiado pela vontade de elaborar retratos sociais concisos e pertinentes. Mas só até certo ponto... Porque essa vontade dispensa qualquer formatação "sociológica", abrindo-se antes à herança imensa de um classicismo romanesco que, para ele, talvez tivesse a expressão mais depurada na obra de Roberto Rossellini (1906-1977).
Experimentador nato, inseparável do sentido de risco do Cinema Novo, Fernando Lopes foi também um pioneiro na arte de perscrutar os limites do próprio cinema, do seu trabalho técnico-formal e do seu imaginário. Afinal de contas, desde esse momento definidor que é "Belarmino", há nele a consciência exacta dos limites do documentário, não como uma falha expressiva, antes como um apelo à ficção.
"O Meu Amigo Mike ao Trabalho" (2008), o seu derradeiro trabalho especificamente documental, condensa tal atitude criativa. Somos levados a descobrir a pintura de Michael Birbestein como uma arte, paciente e enigmática, de reconversão (ou reimaginação) do mundo quotidiano dos sentidos. E nesse processo o artista garante-nos que a sua identidade testa a tentação das suas próprias fronteiras.
Versão restaurada de "Lawrence da Arábia"
O clássico de David Lean ganhou sete Oscars da academia norte-americana, entre eles, o de melhor filme e melhor realizador.