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Que fazer com a tradição do "fantástico"?

"Thelma", de Joachim Trier, é mais um filme apostado em encontrar uma síntese entre referências que, de uma maneira ou de outra, envolvem uma certa celebração da tradição do "fantástico".

Que fazer com a tradição do fantástico?
Ellie Harboe, intérprete de Thelma — o que há para além da competência técnica?
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 Que fazer com a tradição do fantástico?
Thelma Thelma, uma jovem e tímida estudante, deixa o seio da sua família religiosa para estudar na Universidade em Oslo. Um dia começa a sofrer violentos e inesperados ataques que coincidem com a sua atracção por outra estudante, Anja, que retribui esses sentimentos. À medida que se torna claro que os ataques são um sintoma de habilidades incompreensíveis, perigosas e sobrenaturais, Thelma é confrontada ...

Eis um fenómeno paradoxal dos nossos dias: por um lado, há uma proliferação imensa de produções que encaixam na definição comercial de "filme de terror", com derivações mais ou menos ligadas à tradição do "fantástico"; por outro lado, dir-se-ia que muitos deles se satisfazem com a acumulação de referências do próprio género, como se não quisessem ser mais que catálogos de citações...

"Thelma", de Joachim Trier, é, por certo, um sintoma desse estado de coisas — até porque convém sublinhar que em torno dele se construiu um verdadeiro fenómeno internacional de culto, aliás apoiado em opiniões tão sérias quanto sugestivas [leia-se, por exemplo, o texto entusiástico de Peter Bradshaw, no jornal "The Guardian"].

Seja como for, creio que podemos também reconhecer aqui as marcas de um cinema que tem evoluído no sentido de um crescente formalismo em que a própria noção de género (cinematográfico) já não é um ponto de partida, antes um leque de referências que importa "ilustrar".

A história assombrada de Thelma parece querer integrar um pouco de tudo, desde a crónica psicológica de uma jovem marcada por uma estrita educação religiosa, até à sugestão de um universo que escapa às coordenadas da percepção comum, sem esquecer a pontuação dramática de um amor lésbico — infelizmente, tudo isso se (des)organiza num desenvolvimento que confunde a criação de momentos de algum impacto visual, um pouco à maneira da estética publicitária, com a criação de uma genuína ambiência narrativa.

Há neste cinema uma evidente competência técnica e também alguns talentos (Ellie Harboe, a intérprete de Thelma, parece ser uma actriz plena de potencialidades). Fica por esclarecer como construir um filme consistente quando, em boa verdade, nada se tem para dizer sobre os "temas" convocados — a sugestão banal de um fundamentalismo religioso a condicionar a existência de Thelma é mesmo um daqueles "gadgets" que serve apenas para dar ao filme alguma ilusão de actualidade...

Crítica de João Lopes actualizado às 23:15 - 07 outubro '18
publicado 23:10 - 07 outubro '18

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