VIAGEM A PORTUGAL, Sérgio Tréfaut  

Real ficção na fronteira portuguesa

A primeira ficção do documentarista Sérgio Tréfaut é inspirada num caso real de uma cidadã estrangeira que não consegue entrar em Portugal. Um filme denuncia sobre uma realidade invisível e silenciosa.

Real ficção na fronteira portuguesa
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 Real ficção na fronteira portuguesa
Viagem a Portugal Maria (Maria de Medeiros) é uma médica ucraniana que aterra em Portugal, no aeroporto de Faro, com um visto de turismo. À sua espera está um homem senegalês. De todos os passageiros que seguem no mesmo voo, Maria fora a única a ser detida e interrogada pela polícia de estrangeiros e fronteiras. E a situação piora quando o homem é identificado. Baseado numa história real, o filme trata temas tão ...
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Real ficção na fronteira portuguesa
Actrizes "Viagem a Portugal" Isabel Ruth e Maria de Medeiros falam do novo filme de Sérgio Tréfaut. Reportagem de Rui Lagartinho.

As fronteiras da Europa já quase não se desenham no mapa, mas continuam erguidas para travar os sonhos e as ambições de muitos cidadãos em trânsito. Os procedimentos da política de imigração é o tema em pano de fundo de "Viagem a Portugal", inspirado na história verídica da professora de russo do realizador.

Uma jovem mulher, cidadã de leste, com pouco recursos linguísticos, é travada num aeroporto português, para que as autoridades se certifiquem das "intenções" que traz na bagagem. Maria de Medeiros incarna o papel desta estrangeira de "Viagem a Portugal", que vem ao encontro do marido senegalês que vive em Lisboa há dois anos.

Sérgio Tréfaut, autor de "Lisboetas", documentário mais visto de sempre nas salas nacionais, parte de uma história real e dos números de estatística para criar uma ficção estruturada como se fosse um interrogatório.

Filmado a preto e branco, desenrola-se nos corredores e salas que a maioria dos viajantes desconhece, onde as autoridades tentam extrair informação aos estrangeiros com visto de entrada em Portugal ou que estão de passagem para outros destinos da Europa.

O ambiente é denso, os diálogos repetitivos e ásperos (como são os interrogatórios), as personagens parecem não fugir de uma rotina e de uma postura que assumem frente ao estrangeiro perdido nas dificuldades de comunicação.

O público partilha das reservas das autoridades que desconhecem os reais motivos de quem chega, mas é também testemunha do tratamento pouco ortodoxo a que são sujeitos os estrangeiros.

No conjunto, é uma obra original pela temática e até por algumas opções estéticas e narrativas, mas que nem sempre jogam a favor do filme, e que não conseguem cumprir na totalidade o propósito de uma repetição premeditada.

Mesmo assim, Sérgio Tréfaut tem dois trunfos inabaláveis, as actrizes que protagonizam grande parte do interrogatório. Maria de Medeiros, a estrangeira frágil mas determinada, e Isabel Ruth, a zelosa e experiente funcionária da alfândega.

"Viagem a Portugal" é uma visão do invisível, do que apenas conhecemos por números oficiais, e de uma realidade paralela que muitas vezes fica em silêncio. A actualidade joga a favor do filme, no momento em que a Europa volta a ponderar a suspensão do acordo de Schenguen em situações de excepção. O filme mostra como as excepções ainda podem ser rotinas instaladas.

Crítica de Lara Marques Pereira
publicado 01:24 - 20 junho '11

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