Estreias  

Realismo e intimismo

Teresa Villaverde, a cineasta de "Os Mutantes", regressa com uma crónica realista sobre uma família em estado de desamparo — belo exemplo de um cinema que não perdeu as suas ligações com a realidade portuguesa.

Realismo e intimismo
Alice Albergaria Borges em "Colo" — na intimidade de uma família
Crítica de
Subscrição das suas críticas
145
Trailer/Cartaz/Sinopse:
 Realismo e intimismo
Colo Em Lisboa, uma mãe trabalha em dois empregos enquanto o seu marido ficou desempregado. Têm uma filha adolescente. Com as dificuldades que se vão acumulando, gradualmente eles afastam-se uns dos outros, e uma tensão cresce em silencio e culpa. O filme é uma reflexão muito actual, e quase serena, sobre o nosso caminho comum como sociedades europeias de hoje, sobre o nosso isolamento, a nossa ...

Colo... Bela palavra para título de um filme. Na verdade, não há nenhuma justifica directa para a sua aplicação, mas "Colo", de Teresa Villaverde, é uma história de muitos desamparos, povoada de personagens que, conscientemente ou não, procuram o calor e a protecção de alguém — é um filme de muitas solidões à procura de outras solidões com que possam comunicar.

No Interior da produção portuguesa, Villaverde é, afinal, uma das criadoras que mais longe tem levado um sistemático desejo realista. Quando pensamos em títulos como "Os Mutantes" (1998), "Transe" (2006) ou "Cisne" (2011), deparamos com essa obsessiva colagem aos elementos do quotidiano, sem que, em qualquer caso, tal atitude desemboque no maniqueísmo naturalista de muitas linguagens televisivas.

Assim acontece em "Colo". De tal modo que penetramos nos espaços íntimos de uma família atravessada pelos mais diversos factores de instabilidade — desde a filha (Alice Albergaria Borges) que parece mais próxima do seu passarinho que de qualquer outro ser vivo, até aos pais (Beatriz Batarda e João Pedro Vaz), vivendo uma espécie de divórcio emocional que se reflecte nos mais anódinos sinais do dia a dia.

Estamos, enfim, perante uma crónica de um estado de crise e, obviamente não por acaso, o tema da falta de dinheiro é transversal a todas as peripécias da narrativa. "Colo" consegue a proeza de desenhar um retrato muito nosso, das nossas ânsias e silêncios, sem nunca ceder a lugares-comuns sociológicos ou morais. Dito de outro modo: este é um filme que desmente a ideia feita, sobretudo mal feita, segundo a qual o cinema português não sabe abordar o seu próprio presente.

Crítica de João Lopes
publicado 22:35 - 15 março '18

Recomendamos: Veja mais Críticas de João Lopes