Realismo em tom japonês

Hirokazu Kore-eda é dos poucos cineastas japoneses contemporâneos que, apesar de tudo, tem mantido uma presença regular no mercado português. Agora, com "O Meu Maior Desejo", descobrimo-lo de novo a retratar as nuances do universo infantil.

Realismo em tom japonês
As crianças de "O Meu Maior Desejo": para reavaliar as tensões do espaço familiar
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 Realismo em tom japonês
O Meu maior Desejo Koichi tem doze anos e uma curiosidade imensa acerca do mundo. Vive com a mãe e avós maternos em Kagoshima, uma cidade que vive sob a ameaça de um enorme vulcão que emite regularmente nuvens de cinza. O irmão mais novo de Koichi, Ryunosuke, vive em Hakata, onde o pai de ambos é guitarrista numa banda de rock. Koichi é naturalmente alegre, mas intimamente sofre com o divórcio dos pais. O que ele ...

É pena que o mercado português não mantenha uma relação mais regular com a actual produção cinematográfica do Japão (entre outros países mais ou menos distantes). Sobretudo porque exemplos soltos como o de Hirokazu Kore-eda nos permitem perceber que há, nessa produção, uma atenção muito especial ao presente social e familiar, atravessada por temas que possuem uma evidente universalidade.

Koreeda, vale a pena recordar, possui uma formação de natureza documental. Não admira, por isso, que a complexidade dramática das suas histórias e personagens parta sempre de uma metódica observação do quotidiano (sobre as suas origens documentais, sugere-se a leitura de uma entrevista dada no âmbito do Festival de Yamagata).

Agora, depois de "Ninguém Sabe" (2004) e "Andando" (2008), reencontramos o trabalho de Kore-eda através de "O Meu Maior Desejo" (título inglês: "I Wish"), filme que, antes de tudo o mais, confirma o seu empenhamento em observar as nuances do universo infantil. Mais do que isso: este é um objecto que recoloca a questão das relações crianças/adultos num registo que nos permite perceber o abalo dos padrões tradicionais do espaço familiar.

A peculiar energia do trabalho de Kore-eda enraiza-se num intransigente realismo. É bem verdade que o ponto de partida da intriga de "O Meu Maior Desejo" possui um claro apelo de fábula: um grupo de crianças empreende uma viagem para, no local em que se cruzam dois comboios de alta velocidade, formularem os seus desejos (acreditando que assim se concretizarão)... Mas não é menos verdade que o cineasta nunca reduz os seus pequenos heróis a qualquer coisa de anedótico ou pitoresco; de facto, eles estão a tentar encontrar o seu lugar no mundo.

Sabemos que, hoje em dia, muitos produtos "telenovelescos" ("Morangos com Açúcar" e seus derivados) reduzem as personagens infantis a "bonecos" sem existência dramática nem espessura emocional. Por isso mesmo, filmes como "O Meu Maior Desejo" correspondem a uma salutar reacção contra uma cultura da banalização humana, tanto mais que Kore-eda sabe expor as peculiares tensões entre o velho e o novo. É bem verdade que este não é um filme bafejado pelas manchetes, mas não deixa de ser uma das melhores estreias do nosso Verão cinematográfico.

Crítica de João Lopes
publicado 16:13 - 12 agosto '12

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