Gong Li, musa de muitos filmes de Zhang Yimou, volta a trabalhar sob a sua direcção


joao lopes
31 Jul 2015 0:31

O cinema da China é um fascinante continente expressivo, de alguma maneira reflectindo as convulsões da sociedade chinesa, sobretudo nas últimas décadas. Em boa verdade, conhecemo-lo mal, mas de vez em quando vão surgindo alguns filmes preciosos, desses que nos ajudam a compreender um pouco daquilo que está geografica e simbolicamente muito longe, enraizado em valores específicos, por vezes enigmáticos.

É o caso de "Regresso a Casa", de Zhang Yimou (autor de títulos como "Milho Vermelho", "Herói" ou "As Flores da Guerra"), um dos nomes emblemáticos da chamada Quinta Geração que, a partir de meados dos anos 80, mudou o cinema chinês e, mais do que isso, transfigurou a sua presença nos mercados mundiais. Esta é a história de um casal separado pelas atribulações da chamada Revolução Cultural — Zhang Yimou comete a proeza de retraçar algumas décadas da história da China através das vidas paralelas dos protagonistas.

"Regresso a Casa" consegue, de uma só vez, ter a respiração de um drama intimista e a imponência de um grande fresco histórico, sabendo equilibrar de forma invulgar as cenas privadas e as grandes movimentações colectivas. Estamos, afinal, perante um cinema que não abdica de uma dimensão carnal que começa, necessariamente, no singular trabalho dos protagonistas — Chen Daoming, no papel de homem que é preso, e Gong Li (musa de muitos filmes de Zhang Yimou), assumindo a figura trágica da mulher que o espera.

E se há um lugar-comum que tende a sugerir que a produção dos países asiáticos é mais ou menos tosca, tecnicamente limitada, veja-se a subtileza de fabricação de "Regresso a Casa", naturalmente indissociável do seu rigor dramatúrgico e riqueza narrativa. Fica, a esse propósito, a sugestão de uma (re)visão de "Uma Mulher, uma Arma e uma Loja de Massas" (2009), filme que passou totalmente despercebido (entretanto, já editado em DVD), uma desconcertante comédia policial que, além do mais, nos permite compreender um pouco da versatilidade de Zhang Yimou.

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