Estreia  

Reencontro com um grande documentarista

Frederick Wiseman, autor de "A Dança", regressa com um filme sobre o lendário "Crazy Horse" parisiense: uma grande lição de documentarismo, uma vez mais apoiada nas novas câmaras digitais.

Reencontro com um grande documentarista
"Crazy Horse": filmar a simbologia do inacessível
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 Reencontro com um grande documentarista
Crazy Horse Crazy Horse é um famoso cabaré, inaugurado na década de 50 e que se tornou um lugar essencial da noite parisiense, tão característico como os lugares mais visitados de uma das cidades mais importantes do mundo. Os espetáculos de striptease partem sempre da beleza e do erotismo femininos, num cenário de perfecionismo e elegância, que o realizador Frederick Wiseman quis registar para a posteridade, ...
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Critica "Crazy Horse"

A palavra "desejo" no palco do cabaret parisiense, Crazy Horse, condensa o misto de sedução e interdito de um espectáculo lendário -- Frederick Wiseman, nome grande do moderno documentarismo, passou alguns meses nos bastidores deste cenário, registando o labor de um equipa comandada por um valor clássico de entertainment: "Crazy Horse" é um dos grandes documentários do ano e, mais simplesmente, um dos filmes maiores de 2011.

Escusado será dizer que o facto de se estar perante um espectáculo para adultos não confere ao filme de Wiseman qualquer dimensão gratuita ou especulativa -- isto não é cinema tablóide... Em boa verdade, o seu filme mostra que o strip-tease (pelo menos, tal como é concebido no Crazy Horse há mais de meio século) funciona menos como um ritual de revelação e mais como uma encenação de distanciamento em relação aos corpos femininos: o espectáculo celebra, afinal, a simbologia do inacessível.

Acima de tudo, Wiseman interessa-se pelo trabalho. Como sempre, aliás. Já o fez filmando um liceu ("High School", 1968), um hospital ("Near Death", 1989) ou um jardim zoológico ("Zoo", 1993). O que ele expõe são relações de trabalho e modos de planificação de tarefas. Daí o facto insólito, sempre fascinante, de a matéria nuclear dos seus filmes ser a palavra: é através dos diálogos que penetramos na rede de implicações e poderes de qualquer estrutura de trabalho.

"Crazy Horse" é também um filme que confirma o envolvimento feliz de Wiseman com os novos recursos digitais (lembremos o anterior "Boxing Gym", de 2010, centrado no dia a dia de um ginásio). A utilização de uma câmara muito ligeira, especialmente sensível à luz, capaz de filmar em espaços de escassa iluminação, confere a "Crazy Horse" uma dimensão paradoxal: há, aqui, uma subtil intimidade que não exclui o distanciamento próprio de um verdadeiro repórter.

Crítica de João Lopes actualizado às 22:58 - 01 novembro '11
publicado 18:49 - 01 novembro '11

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