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Reinventando o melodrama de guerra

Consagrado pela trilogia "Regresso ao Futuro", Robert Zemeckis continua a ser um cineasta que não pode ser encerrado num género ou tendência — com o brilhante "Aliados", protagonizado por Brad Pitt e Marion Cotillard, ele reencontra a tradição de "Casablanca".

Reinventando o melodrama de guerra
Marion Cotillard e Brad Pitt — Robert Zemeckis é também um brilhante director de actores
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 Reinventando o melodrama de guerra
Aliados “ALIADOS” conta a história do oficial Max Vatan (Brad Pitt) que, em 1942, no Norte de África, encontra Marianne Beausejour (Marion Cotillard), da Resistência Francesa, numa missão mortal atrás das linhas inimigas. De novo juntos, em Londres, a sua relação é ameaçada por pressões extremas da Guerra.

Por vezes, o estatuto mediático (ou "crítico") que se cola a alguns cineastas funciona como um verdadeiro bloqueio à diversidade do seu trabalho. Veja-se o caso do americano Robert Zemeckis, companheiro de geração de Steven Spielberg: a sua trilogia "Regresso ao Futuro" (1985, 1989, 1990) surge muitas vezes como um filtro redutor — o seu domínio seria a "aventura", a sua vocação os "efeitos especiais"...

O seu novo e belíssimo filme — "Aliados" ("Allied") — aí está para desmentir tão esquemática descrição, aliás reforçando também a singularidade do anterior "The Walk - O Desafio" (2015), sobre a odisseia de Philippe Petit, em 1974, entre as torres do World Trade Centre. Por certo apoiado num sofisticado saber tecnológico, "Aliados" não deixa de ser uma ousada e fascinante aposta na recuperação do modelo de melodrama de guerra que possui a sua referência mítica em "Casablanca" (1942).

Centrado num par de espiões, Max e Marianne, ele canadiano, ela das fileiras da Resistência Francesa, "Aliados" evolui como um conto moral que adquire uma perturbante dimensão intimista — depois dos protagonistas se casarem, ainda com a ameaça nazi a pesar na Europa, os serviços secretos britânicos suspeitam da fidelidade política de Marianne...

Zemeckis encena tudo isso como um elegante e perverso bailado entre verdade e mentira, com a entrega amorosa a ser contaminada por uma insidiosa suspeita de traição. Tudo isso também, importa sublinhar, através de uma narrativa de admirável depuração clássica, de que o argumento de Steven Knight constitui, obviamente, a primeira e decisiva peça estruturante.

Enfim, não esqueçamos que Zemeckis, por certo sempre à vontade nas cenas que envolvem as mais arriscadas componentes técnicas, continua a ser um brilhante director de actores: Brad Pitt e Marion Cotillard são notáveis de subtileza e emoção, além do mais fazendo-nos lembrar que as especulações em torno do recente divórcio de Pitt não são uma boa razão para descobrir este filme — "Aliados" é um filme é um filme é um filme.

Crítica de João Lopes
publicado 12:09 - 01 dezembro '16

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