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Revisitando memórias da emigração

A cineasta luso-francesa Cristina Pinheiro revisita a década de 1970 para contar uma história que envolve uma família portuguesa com uma filha já nascida em França — "Menina" é um caso de simplicidade e sensibilidade.

Revisitando memórias da emigração
Nuno Lopes e Naomi Biton — memórias da França da década de 1970
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Bem sabemos que, por vezes, as histórias sobre a emigração portuguesa em França não são exactamente histórias... São arranjos mecanicistas que "obrigam" as personagens a desempenhar uma função banalmente simbólica, em boa verdade negando-lhes o direito a pertencer a uma história. O mínimo que se pode dizer de "Menina" é que se trata de um filme (de produção francesa) que escapa, ponto por ponto, a tais facilidades e à sua frequente demagogia.

Em diversas declarações por altura da estreia de "Menina" em França, em 2017, a realizadora Cristina Pinheiro esclareceu que há muitas memórias pessoais que ecoam na sua história, mesmo se não estamos perante um projecto auto-biográfico. A personagem do título é, tal como a realizadora, filha de um casal português que emigrou para França na década de 1970 — a sua fixação social envolve factores dramáticos de inserção, de algum modo exponenciados pelos problemas de saúde do pai.


Com um assinalável rigor de composição dos planos, mesmo se o equilíbrio de duração das cenas talvez nem sempre seja devidamente controlado, "Menina" possui essa virtude básica, mas essencial, de realmente se interessar pelos seres humanos que nos apresenta. De acordo com uma regra eminentemente clássica, as personagens chegam-nos, não através de um "conceito" que as antecipa, antes das acções que desenvolvem ou em que se vêem envolvidas. Componentes como as alternâncias do francês e do português nos diálogos não são detalhes pitorescos, mas sim dados essenciais para acedermos àquelas relações familiares e sociais.

Daí, claro, a importância da direcção dos actores. Nas personagens do pai e da mãe, Nuno Lopes e Beatriz Batarda sabem emprestar verdade às situações, desse modo escapando a qualquer estereótipo. Em qualquer caso, é Naomi Biton, a jovem intérprete da menina, que emerge com singular energia: a sua performance consegue escapar a qualquer cliché "juvenil", e não é todos os dias que descobrimos, assim, em cinema, a sensibilidade e a inteligência, e também a perplexidade e a angústia, de uma personagem de criança.

Crítica de João Lopes
publicado 23:49 - 26 abril '19

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