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Ser e não ser português

Depois de ter passado pelos festivais de Veneza e Toronto, "A Herdade" está nas salas portuguesas, convocando os espectadores para uma sedutora aventura dramática — trata-se de olhar para várias décadas da nossa história, superando convenções e preconceitos.

Ser e não ser português
Albano Jerónimo, Diogo Dória e Álvaro Correia: memórias de várias décadas portuguesas
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 Ser e não ser português
A Herdade A saga de uma família proprietária de um dos maiores latifúndios da Europa, na margem sul do rio Tejo, convida-nos a mergulhar profundamente nos segredos da sua Herdade, fazendo o retrato da vida histórica, política, social e financeira de Portugal, dos anos 40, atravessando a revolução do 25 de Abril e até aos dias de hoje.

Uma noção simplista, alimentada pelas versões mais maniqueístas da ficção televisiva, tenta fazer crer que "reconstituir" o passado é uma tarefa totalmente codificada: procuram-se os cenários da época, vestem-se os actores de acordo com as respectivas modas... e apresenta-se uma história que, supostamente ou não, aconteceu naquele tempo...

O mínimo que se pode dizer de "A Herdade" é que se trata de um filme que, longe de menosprezar os factores a que, normalmente, damos o nome de "adereços", aposta em revisitar o passado através de um risco calculado e estimulante. A saber: fazer o retrato de várias décadas da história de Portugal (pré e pós-25 de Abril) através das vivências específicas no interior de um latifúndio na margem sul do rio Tejo.

Num certo sentido, trata-se de explorar acontecimentos públicos e privados que, quase sempre, o cinema português abordou omitindo as personagens das classes dominantes. Ora, neste caso, no centro dos acontecimentos surgem, precisamente, o proprietário do latifúndio e a sua mulher — interpretados com especial subtileza emocional por Albano Jerónimo e Sandra Faleiro, respectivamente.

Aliás, o trabalho dos actores é essencial para a visão convulsiva  — apetece dizer: romântica e anti-romântica — proposta pelo realizador Tiago Guedes. Estamos, afinal, perante um sedutor fresco histórico em que o drama nasce dos conflitos que se desenham entre a verdade emocional de cada personagem e o papel que lhe é atribuído pelo sistema familiar, a hierarquia social ou a conjuntura política.

Não será um caso isolado na dinâmica criativa do cinema português, mas não há dúvida que este é um filme que se distingue pela capacidade de enfrentar as nossas memórias históricas evitando definir personagens e situações através de pré-conceitos, sejam eles dramáticos ou políticos. 

Nessa medida, "A Herdade" ilustra também a possibilidade de questionar o ser português muito para além de qualquer perspectiva pitoresca ou populista. Entenda-se: contemplando as linhas contraditórias da nossa história — e também do nosso imaginário.

Crítica de João Lopes
publicado 23:32 - 20 setembro '19

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