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Shakespeare reinventado na prisão

Foi Urso de Ouro do Festival de Berlim, no passado mês de Fevereiro: "César Deve Morrer", dos irmãos Taviani, é o espantoso retrato de uma representação de "Júlio César" no interior de uma prisão de alta segurança.

Shakespeare reinventado na prisão
Na clausura da prisão: à (re)descoberta de Shakespeare
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 Shakespeare reinventado na prisão
César Deve Morrer Uma sala de teatro na prisão de Rebibbia em Roma. Uma encenação de Júlio César de Shakespeare chega ao fim do meio de grandes aplausos. As luzes baixam e os actores, que se transformam novamente em presos, são acompanhados às suas celas.

De forma curiosa, curiosamente sintomática, algumas vozes ergueram-se contra o facto de "César Deve Morrer", de Paolo e Vittorio Taviani, ter recebido o Urso de Ouro do Festival de Berlim de 2012. Em causa estaria a sua dimensão "tradicional", por oposição a outras propostas consideradas mais "experimentais"...

Vale a pena evocar tais atribulações, quanto mais não seja por ser normal que um filme (dos Taviani ou seja de quem for) suscite diferentes juízos de valor. Para além disso, importa discutir essa noção determinista e, afinal, profundamente reaccionária, segundo a qual é possível desenhar um linha "evolutiva" do cinema (ou de qualquer linguagem artística): quem não respeitar a suposta lógica dessa linha, deve ser secundarizado...

Em boa verdade, os irmãos Taviani relançam uma questão, enraizada no imaginário dos anos 60, cuja pertinência está longe de se ter desvanecido. A saber: as fronteiras da representação fílmica oscilam entre o realismo mais cru e o artifício mais delirante ou mais teatral.

"César Deve Morrer" é um objecto que nasce no coração dessa dicotomia, uma vez que se trata de filmar o trabalho de preparação de uma representação do "Júlio César", de William Shakespeare, no interior de uma prisão de alta segurança, nos arredores de Roma. O labor dos presos surge, assim, também ele, numa dupla faceta: registo documental e celebração do poder figurativo do teatro -- César deve morrer quer dizer, em última instância, que podemos e devemos desafiar o poder dominante das ficções, aliás, o poder das ficções dominantes, resistindo à sua normalização do mundo.

Daí o seu espantoso efeito dramático: assistimos à paciente reinvenção de "Júlio César", ao mesmo tempo que descobrimos um universo de clausura, não num registo de "reportagem" televisiva, antes como espaço de uma vivência necessariamente crua e desencantada. Os Taviani ajudam-nos, afinal, a descobrir a permanência universal do factor humano.

Crítica de João Lopes
publicado 20:43 - 31 outubro '12

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