Estreia - "Hereafter - Outra Vida"  

Sinais de morte, histórias de vida

A partir de um notável argumento de Peter Morgan, uma impressionante viagem pelas fronteiras da nossa existência. Ou ainda: a confirmação de Clint Eastwood como um dos grandes humanistas do cinema contemporâneo.

Sinais de morte, histórias de vida
Clint Estawood na filmagem de "Hereafater" com o jovem Frankie McLaren
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 Sinais de morte, histórias de vida
Hereafter - Outra Vida Três pessoas, distantes entre si, estão unidas pela morte. Nos EUA, George vive atormentado pelas capacidades paranormais que revela desde muito jovem. Do outro lado do Atlântico, em França, a jornalista Marie tenta lidar com o trauma de ter sobrevivido ao tsunami de 2004 no Sudeste asiático. Enquanto isso, em Inglaterra, o pequeno Marcus não consegue lidar com a trágica morte do irmão gémeo. ...

Afinal, de que falamos quando falamos da morte?

E que mostramos quando filmamos a morte?

Aliás, é possível falar da morte? E filmá-la?

"Outra Vida" ("Herefater") é um filme gerado por estas perguntas, ou seja, uma teia de histórias cruzadas, envolvendo três personagens: uma jornalista francesa (Cécile de France) que está na Tailândia quando ocorre o devastador tsunami de 2004; um rapaz de 12 anos (Frankie McLaren), de Londres, cujo irmão gémeo morre atropelado; e um especialista com poderes psíquicos (Matt Damon) que quer abandonar a sua actividade, apesar de o irmão tentar contrariar a sua decisão.

Provavelmente, nas mãos de um cineasta vulgar, o resultado seria apenas uma visão anedótica de "crenças" e "não-crenças", talvez para ser discutida no âmbito de um vulgar talk-show televisivo. O certo é que sob a visão de Clint Eastwood, o argumento de Peter Morgan (em si mesmo, um trabalho fora de série) transforma-se numa viagem ao mais enigmático das relações humanas, aí onde o cinema enfrenta o desafio imenso de lidar com tudo o que não vemos, mas apenas desejamos ou intuímos.

Se é verdade que há um herdeiro directo do humanismo clássico, exemplarmente simbolizado por John Ford (1894-1973), então Clint Eastwood é claramente esse herdeiro: alguém para quem o cinema existe sempre a partir de alguma pulsão realista, ao mesmo tempo vocacionado para lidar com os sinais mais secretos da nossa existência, das nossas histórias de vida e morte.

E há qualquer coisa de chocante no facto de "Hereafter" ser um filme ausente de todos os prémios, referentes à produção cinematográfica de 2010, que têm sido atribuídos nos últimos meses nos EUA (incluindo os Globos de Ouro). Não será difícil prever que os Oscars confirmação essa "marginalização" — o menos que se pode dizer é que passarão ao lado de um dos mais belos acontecimentos do cinema made in USA dos últimos anos.

Crítica de João Lopes
publicado 19:31 - 23 janeiro '11

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