Estreias  

Sobre a crueldade social

Consagrado através de filmes mais ou menos fantásticos como "The Host" e "Okja", Bong Joon-ho surge, agora, com um trabalho incomparavelmente mais interessante: "Parasitas" é a história de uma família que conquista o espaço de outra família...

Sobre a crueldade social
"Parasitas": o social está longe de ser um banal fenómeno em rede...
Crítica de
Subscrição das suas críticas
145
Trailer/Cartaz/Sinopse:
 Sobre a crueldade social
Parasitas Ki-taek tem uma família unida, mas estão todos desempregados e as suas perspectivas futuras são negras. O filho Ki-woo é recomendado por um amigo – que frequenta uma prestigiosa universidade – para dar explicações bem pagas, o que vem desencadear a esperança de um rendimento regular na família. Portador das expectativas familiares, Ki-woo dirige-se à casa dos Park para uma entrevista de trabalho. ...

Como vai a luta de classes na Coreia do Sul?... Pergunta insólita, sem dúvida, mas inteiramente justificada face a um filme como "Parasitas", de Bong Joon-ho. Isto porque encontramos aqui uma das mais desconcertantes ficções que pudemos descobrir em tempos recentes: uma família sem grandes meios vai-se insinuando na vida de uma outra família, muito rica, a ponto de ocupar o seu quotidiano...

Enfim, manda o bom senso que não revelemos muito das peripécias do filme. Mas importa dizer também que não se trata de uma mera colecção de anedotas resultantes dos contrastes entre "ricos" e "pobres". Bong Joon-ho coloca em cena uma teia de fidelidades e traições que nos leva a contemplar o social como um mapa de muitos contrastes enraizados nos gestos mais subtis.

Nada a ver, entenda-se, com o entendimento mesquinho do "social" como um fenómeno virtual, exclusivamente "em rede". Podemos mesmo dizer que este é um filme sobre a pulsação muito física das relações sociais, a ponto de "Parasitas" envolver uma estranha e perturbante moral — será que a vida social é uma colecção de máscaras com que enganamos os outros e, no limite, nos enganamos a nós próprios?

Bong Joon-ho tornou-se conhecido como realizador de filmes mais ou menos fantásticos ou fantasistas, como "The Host - A Criatura" (2006) e "Okja" (2017), qualquer um deles, a meu ver, muito menos interessante que "Parasitas". Agora, ele coloca em marcha um dispositivo dramático que vai da caricatura ao "thriller", expondo a crueldade interior do espaço social — daí também a dimensão universal deste filme, por certo fundamental para a sua consagração com a Palma de Ouro de Cannes.

Crítica de João Lopes
publicado 23:25 - 27 setembro '19

Recomendamos: Veja mais Críticas de João Lopes