Spielberg & Hergé: uma aliança feliz

Passaram-se cerca de trinta anos desde que Steven Spielberg pensou em transpor o universo de Tintin para cinema: foram os modernos recursos digitais que lhe trouxeram a solução para o projecto.

Spielberg & Hergé: uma aliança feliz
Tintin, Haddock e Milu revistos por Spielberg: dos actores ao digital
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 Spielberg & Hergé: uma aliança feliz
As Aventuras de Tintin – O Segredo do Licorne (VO) Tintin (Jamie Bell) compra numa feira de antiguidades um modelo de um barco antigo para oferecer ao seu amigo Capitão Haddock (Andy Serkis). “Licorne”, como é designado, é uma réplica perfeita do navio de um antepassado do Capitão, o Cavaleiro Hadoque. Coincidentemente (ou não…) o barco é roubado ao mesmo tempo que a casa de Tintim é assaltada… e que o Capitão descobre as memórias do Cavaleiro, ...
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Como em relação a outros filmes sustentados por gigantescas campanhas de promoção, vale a pena lembrar o mais óbvio: nenhum filme é "melhor" ou "pior" em função dos seus investimentos, sejam eles publicitários ou apenas de produção. Mas é um facto que há filmes que, também através dessa promoção, apostam num domínio emimentemente popular.

"As Aventuras de Tintin: O Segredo do Licorne" é um desses filmes. Que é como quem diz: um objecto da linha da frente no tratamento digital das imagens, neste caso do chamado performance capture (actores cujo trabalho serve para criar novas imagens, animadas por complexos programas informáticos), que ambiciona relançar o lendário herói da BD de Hergé e, em boa verdade, da cultura popular europeia dos últimos 80 anos (o primeiro álbum de Tintin, "No País dos Sovietes", surgiu em 1930).

Dirigido por Steven Spielberg, numa associação de produção com Peter Jackson (que irá dirigir o segundo título da série), estas "Aventuras" confrontavam-se com uma dificuldade incontornável: como dar vida a personagens e histórias que, no essencial, têm uma vida própria no papel, parecendo resistir a qualquer transposição?

A resposta de Spielberg é, de uma só vez, a mais básica e a mais inteligente. Que é como quem diz: trata-se de criar um universo visual que respeite tanto quanto possível as singularidades das histórias desenhadas (traço, cor, contrução da imagem, etc.), integrando também o labor específico dos actores. Uma síntese, enfim, entre a inspiração clássica e os instrumentos modernos.

Daí o sentimento paradoxal dos resultados, de algum modo reforçados pela metódica utilização do 3D: há no "Tintin" de Spielberg uma energia espectacular que não pode deixar de fazer recordar o melhor da saga de Indiana Jones, mas há também uma ambiência gráfica que lhe confere a alegria de um álbum em movimento (muito justamente, Spielberg já fez notar que os desenhos de Hergé possuem qualquer coisa de storyboard).

Eis, enfim, uma aliança feliz. Demorou muito tempo a concretizar, uma vez que Spielberg pensou em transpor Tintin para cinema por volta de 1982, pouco depois de concluir "Os Salteadores da Arca Perdida". E demorou, em parte, porque o cineasta tinha dúvidas sobre as possibilidades de concretizar o projecto através dos recursos tradicionais da imagem real. Agora, com o digital (mais do que com o 3D), Spielberg consegue o que pretendia: um mundo de generoso artifício, delirante na narrativa, humano pelo espírito.

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Crítica de João Lopes actualizado às 13:37 - 26 outubro '11
publicado 02:45 - 26 outubro '11

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