TUDO BONS RAPAZES (1990)
"Goodfellas": Ray Liotta + Robert De Niro + Paul Sorvino + Joe Pesci

DVD Memória  

TUDO BONS RAPAZES (1990)

As histórias da Mafia constituem uma componente fundamental no universo temático, histórico e simbólico de Martin Scorsese — "Goodfellas" é, nesse domínio, uma memória incontornável.

O universo cinematográfico de Martin Scorsese tem qualquer coisa de familiar. Desde logo porque, mesmo nas histórias sobre os bastidores do crime, ele filma sempre as convulsões das mais diversas famílias (famílias de sangue, famílias de negócios). Mas também porque a sua obra envolve toda uma família artística e afectiva. No seu novo e admirável filme, “O Irlandês”, regressam dois actores dessa sua tão especial família: Robert De Niro e Joe Pesci. Vimo-los, por exemplo, em 1990, em “Goodfellas”, entre nós chamado “Tudo Bons Rapazes”.


A personagem que serve de pivot à acção de “Goodfellas” é interpretada por Ray Liotta. É ele que assume a voz off do filme, numa narração que tem tanto de deslumbramento confessional como de progressiva desagregação de um universo em que as mais brutais formas de violência vão pontuando todas as fidelidades, todas as traições — como canta Tony Bennett, é uma saga que acontece entre pobreza e riqueza.


Em 1990, quando realizou “Goodfellas”, Scorsese era já um autor com um universo consolidado, cada vez mais complexo e sofisticado nos seus arranjos narrativos. Pode dizer-se que “Goodfellas” possui a perturbante intimidade de “Taxi Driver” (1976), tanto quanto a elegância trágica de “Touro Enraivecido” (1980). De tal modo que a utilização das canções adquire uma desconcertante ambivalência. Por exemplo, o romantismo de “Then He Kiss Me”, da banda feminina The Crystals, tem tanto de romantismo frívolo como de profunda inquietação — é um clássico de 1963, com produção de Phil Spector.


Musicalmente, “Goodfellas” é, de facto, um impressionante catálogo de melodias e ritmos que nunca são meramente decorativos. A sua inserção na acção do filme envolve o ambiente da época, como é óbvio, mas também uma espécie de coro de vozes interiores que pontuam, duplicam e decompõem os movimentos de consciência das próprias personagens. Exemplo notável entre todos: “Gimme Shelter”, um clássico dos Rolling Stones que surgiu no álbum “Let It Bleed”, faz agora 50 anos.

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publicado 16:01 - 05 dezembro '19

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