Um drama francês (com música)

Christophe Honoré, o cineasta de "As Canções de Amor", continua a cultivar o seu gosto pela música e pelas canções. Novo e fascinante exemplo: a íntima musicalidade de "Os Bem-Amados".

Um drama francês (com música)
Chiara Mastroianni e Catherine Deneuve: família real, família cinéfila
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 Um drama francês (com música)
Os Bem-Amados Há uma geração que as separa. Mas a história gira em torno dos seus amores… o que na realidade acaba por aproximá-las. São mãe e filha; uma cresceu na década de 60 em Paris, outra na década de 90 em Londres. Madeleine (Catherine Deneuve) move-se na época da emancipação feminina, do amor livre, da fuga ao compromisso; Véra (Chiara Mastroianni) cresce numa altura em que muito se fala e teme a ...
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É mesmo verdade: do americano Clint Eastwood ao italiano Daniele Luchetti, há no cinema contemporâneo das mais diversas origens uma vaga romanesca (não necessariamente romântica) que, procura, antes de tudo o mais, compreender a dinâmica interna das famílias, pais e filhos, mães e filhas.

O novo filme do francês Christophe Honoré é disso um belo exemplo: "Os Bem-Amados" segue a teia de relações, encontros e desencontros, de uma mãe e uma filha (Catherine Deneuve e Chiara Mastroianni, mãe e filha na vida real), para construir uma narrativa que, afinal, passa pela música, mais especificamente pelas canções.

Estamos, então, perante o célebre "regresso do musical", ciclicamente anunciado (e adiado)? Não exactamente. Tal como François Ozon (lembremos o notável "8 Mulheres"), Honoré assume-se como um autor seduzido pela tradição do musical, mas pouco ou nada empenhado em construir variações servis, ditas "pós-modernas". Em boa verdade, o que o interessa são as convulsões afectivas... e isso também pode ser cantado.

Reeencontramos, aqui, a herança plural de Jacques Demy, não por acaso sancionada pela presença emblemática de Deneuve, protagonista dos clássicos de Demy, "Os Chapeús de Chuva de Cherburgo" (1964) e "As Donzelas de Rochefort" (1967). Mas é uma herança que serve, sobretudo, para reinvestir a história contemporânea, num arco de acontecimentos que vai desde a Primavera de Praga até ao 11 de Setembro.

Contribuição importante: o compositor Alex Beaupain continua a ser um cúmplice decisivo da criatividade de Honoré. Depois de várias colaborações, incluindo "As Canções de Amor" (2007), Beaupain volta a afirmar o seu talento genuinamente cinéfilo: há nele um gosto da chanson tradicional que se adapta, de modo exemplar, ás nuances de uma narrativa cinematográfica.

De facto, "Os Bem-Amados" é um drama com música: um filme habitado pela música que, ao mesmo tempo, acredita nas clássicas potencialidades do retrato íntimo do espaço familiar, nunca perdendo os seus laços com um mundo eminentemente contemporâneo. Podemos não saber cantar, mas isso não impede que reconheçamos as personagens de Honoré como figuras próximas da nossa sensibilidade, tocadas por uma fragilidade comovente, muito humana.

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publicado 23:35 - 29 setembro '11

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