Crítica: "Biutiful"  

Um herói trágico dos nossos dias

Alejandro González Iñárritu deixou de ter um plano aberto sobre um colectivo de personagens e interessou-se pela história de um homem.

Um herói trágico dos nossos dias
Irmandade latina: o mexicano Alejandro González Iñarritu e o espanhol Javier Bardem nas rodagens em Barcelona
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Um herói trágico dos nossos dias
"Biutiful" de Alejandro González Iñárritu Javier Bardem e a atriz argentina Maricel Álvarez são os protagonistas do novo filme do realizador mexicano.

O mexicano Alejandro González Iñárritu tem contado histórias com uma visão universal, um mosaico dramático composto de caminhos percorridos pelas personagens. Os filmes que tem no currículo são globais e construídos para um naipe de actores e múltiplas histórias.

Em "Biutiful", que apresentou no festival de Cannes, no ano passado, o realizador decidiu enveredar por uma narrativa diferente. Quis uma história linear, de um homem numa corrida contra o tempo, a vida e o mundo, à medida que a morte se aproxima. A vontade de mudança, acontece depois de Iñárritu ter acabado a colaboração de longa data com Guillermo Arriaga, o argumentista com quem escreveu os filmes anteriores. O resultado é diferente mas continua a ser o cinema de Iñárritu.

Uxbal é a personagem que carrega aos ombros o peso do olhar de Inárritu, que nunca foi condescendente, e tem feito quase sempre um cinema capaz de provocar e incomodar audiências.

O actor que lhe dá vida é Javier Bardem, numa composição em que surge como marido abandonado, pai extremoso, e homem perdido. Já venceu o prémio de interpretação em Cannes e é um dos candidatos ao Oscar de Melhor Actor.

Ele é intermediário nos negócios de uma família chinesa que explora mão de obra barata, ao mesmo tempo que fornece os vendedores de rua, imigrantes que chegam à Europa sem outras opções. Tem contactos na polícia, a quem paga luvas, e é o homem a quem se recorre quando algo corre mal.Mas é justamente a vida de Uxbal que não está a correr como o previsto.

O realizador e o actor principal negam a ideia de um filme trágico, negativo e pessimista. Pelo contrário, defendem "Biutiful" como uma espécie de luz ao fundo do túnel, em que um homem tenta reparar as contas com a vida, a caminho da morte.

A cidade de Barcelona foi o local escolhido para contar esta história que podia ser em qualquer parte do mundo, mas ao mesmo tempo tem os contornos muito próprios de um meio urbano europeu. Um território cada vez mais apetecível para os negócios da máfia chinesa e o destino de muitos imigrantes africanos. 

Alejandro González Iñárritu continua a trazer as marcas dramáticas que explorou no primeiro filme, "Amor Cão", e por vezes parece filmar a realidade mexicana em Barcelona. É um cinema intenso, aberto ao mundo, provocador no sentido de nos colocar tão próximos do drama real de quem tenta levar a vida, até que a morte chegue.

"Biutiful" é um dos candidatos ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e volta a dar visibilidade ao cinema mexicano, mas é antes de mais, o cinema de um mexicano que sabe olhar o mundo em sentido global, sensível aos dramas pessoais e com sentido crítico.

Crítica de Lara Marques Pereira actualizado às 12:37 - 14 fevereiro '11
publicado 02:29 - 27 janeiro '11

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