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Um imaculado classicismo

O belíssimo livro de Donna Tartt, "O Pintassilgo", renasce agora num filme exemplarmente clássico dirigido por John Crowley — ou como as relações entre cinema e literatura continuam fortes, subtis e envolventes.

Um imaculado classicismo
Hailey Wist e Oakes Fegley — contemplando as maravilhas da pintura holandesa do século XVII
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 Um imaculado classicismo
O Pintassilgo Theodore “Theo” Decker tinha 13 anos quando a mãe foi morta num atentado no Metropolitan Museum of Art. A tragédia muda o curso da sua vida, lançando-o numa odisseia de tristeza e culpa, reinvenção e redenção, e até mesmo amor. Apesar de tudo ele agarra-se a um pedaço tangível de esperança daquele dia terrível... uma pintura de um passarinho acorrentado ao seu poleiro. O Pintassilgo.

Tudo começa quando o jovem Theo (Oakes Fegley) visita uma exposição de pintura holandesa em Nova Iorque, acompanhado pela mãe (Hailey Wist); no momento em que estão a admirar a obra-prima de Carel Fabritius (1622-1654), "O Pintassilgo", uma bomba provoca uma explosão em que a mãe morre...

Dito de outro modo: a partir desse momento, Theo (mais tarde interpretado por Ansel Elgort) vive uma existência em que o quadro de Fabritius o vai acompanhar, literal e simbolicamente, por assim dizer definindo os limites, e também as utopias, de todas as suas experiências.

Ou ainda: estamos perante uma brilhante transfiguração cinematográfica do belíssimo romance de Donna Tartt (Prémio Pulitzer de ficção em 2014), dele conservando, antes de tudo o mais, essa dimensão de saga intimista que, não por acaso, foi várias aproximada da herança de escrita de Charles Dickens (1812-1870).

O que assim descobrimos é algo de precioso. Na verdade, a adaptação de Peter Straughan e a realização de John Crowley relançam, com serenidade e talento, os elementos de um cinema de imaculado classicismo em que o valor central não é a "peripécia", o "pitoresco" ou o "efeito especial", mas algo de mais radical, e também mais humano. A saber: a personagem.

Daí que este seja também um cinema que sabe valorizar o trabalho dos actores, não os intrumentalizando, antes sabendo fazer passar pelo seu ser & estar as componentes decisivas de uma história que, a pouco e pouco, adquire esse misto de densidade e ligeireza que define um conto filosófico. Ou ainda: o que significa pertencer a um grupo, eventualmente a uma família? Mais do que isso: como é que a nossa relação com a arte se enreda com a construção da nossa identidade?

Para além de Fegley e Elgort, ambos magníficos (e capazes de gerar no ecrã um espantoso sentido de continuidade), refira-se a qualidade global de um elenco em que encontramos também, por exemplo, Sarah Paulson, Jeffrey Wright e Nicole Kidman. Decididamente, entre livros e filmes, a paixão da narrativa, da sublime arte de narrar, persiste — e resiste.

Crítica de João Lopes actualizado às 19:49 - 13 setembro '19
publicado 19:41 - 13 setembro '19

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