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Uma comédia do absurdo

"Yesterday" é uma comédia tanto mais desconcertante quanto explora um incrível ponto de partida: e se ninguém (a não ser uma pessoa) se lembrasse das canções dos Beatles? Premissa sugestiva, resultados pouco consistentes...

Uma comédia do absurdo
Himesh Patel a cantar temas dos Beatles — mais ninguém se lembra?...
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É caso para perguntar: quem não se lembra das canções dos Beatles? Digamos que o novo filme de Danny Boyle parte de uma premissa que parece confundir-se com essa pergunta, mas que, afinal, envolve uma situação radical: e se ninguém se lembrasse das canções de John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr... a não ser uma pessoa?

O título, "Yesterday", remete, como é óbvio, para uma das mais célebres dessas canções. E envolve, em particular, essa cena do início do filme em que Jack Malik (Himesh Patel) interpreta "Yesterday" para um grupo de amigos, ficando siderado (e nós também...) com a reacção de espanto e encanto que se lhe depara. De facto, eles acham que Jack, modesto compositor e intérprete até aí à procura de consolidar uma carreira, conseguiu algo de invulgar...



Não seria fácil sustentar uma situação como esta, assumidamente absurda, encenando-a como uma comédia "naturalista". Seja como for, será esse o mérito principal da realização de Boyle. A saber, tratar à letra o argumento de Richard Curtis (nomeado para um Oscar, em 1995, por "Quatro Casamentos e um Funeral"), evitando qualquer racionalização simplista, optando antes por partilhar a celebração das canções que Jack vai viver de forma francamente inusitada.

Eis um filme que começa por nos surpreender pelo insólito radicalismo do seu arranque, cedo começando a fazer-nos sentir que lhe falta energia para acrescentar muitas variações ao ponto de partida. Fica, sobretudo, a magia de "Yesterday", "Let It Be", "Eleanor Rugby"... e uma colecção imensa de maravilhas, devidamente celebrada pelo one-man-show de Himesh Patel. Tendo em conta a inspiração, o resultado consegue o paradoxo de ser tão sedutor quanto frustrante.

Já agora, registemos um breve regresso às origens...

Crítica de João Lopes
publicado 23:52 - 27 junho '19

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