Estreia  

Uma comédia muito negra

Realizador de títulos como "Antes do Amanhecer" ou "Escola de Rock", Richard Linklater continua a fazer filmes desconcertantemente "não-alinhados": com "Morre e Deixa-me em Paz", revisita a história bizarra de um homem que trabalhou numa agência funerária...

Uma comédia muito negra
Jack Black em "Morre e Deixa-me em Paz": um notável trabalho de actor
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 Uma comédia muito negra
Morre... E Deixa-me Em Paz Na pequena cidade rural de Carthage, TX, Bernie Tiede (Jack Black) - o diretor assistente de uma agência funerária, é um dos moradores mais queridos da cidade. Dá aulas na escola Dominical, canta no coro da igreja e está sempre disposto a ajudar o seu próximo”. Todos adoram Bernie, por isso ninguém ficou surpreendido quando ele se torna amigo de Marjorie Nugent (Shirley MacLaine), uma ...

Convenhamos que a figura de um especialista (mais concretamente: director adjunto) de uma agência funerária não é a mais simples, ou até a mais convidativa, das personagens cinematográficas. Para mais tendo atrás de si uma muito crua história verídica...

Mas é esse desafio que Jack Black (actor) e Richard Linklater (realizador) enfrentam no magnífico "Bernie", sobre Bernie Tiede, cujo trabalho numa agência funerária de uma cidadezinha do Texas o levou a uma convivência muito íntima com a viúva de um cidadão cujo funeral ele próprio tinha organizado... O mínimo que se se pode dizer é que, a partir de certa altura, as coisas não correram muito bem, pelo que "Bernie", se encaixa na definição de comédia, é por certo uma comédia muito negra.

O título português, "Morre e Deixa-me em Paz" resulta, afinal, pouco feliz. Desde logo porque esbate algum efeito de suspense que, apesar de tudo, o filme envolve. Mas sobretudo porque parece reduzir tudo a uma anedota mais ou menos picaresca (?) sobre a pulsão de morte...

Acontece que, em vez de optar por uma visão banalmente caricatural do ocorrido, Linklater constrói uma estrutura narrativa que, com desconcertante ambiguidade, envolve um peculiar efeito documental. Assim, o filme organiza-se como um inquérito junto dos cidadãos que conheceram, efectivamente, Bernie Tiede; ao mesmo tempo, há nele um tom de fábula quase barroca sobre os sobressaltos mais secretos da natureza humana.

Linklater conseguiu, assim, criar um objecto que escapa a qualquer classificação corrente. Dir-se-ia que "Morre e Deixa-me em Paz" é uma digressão sobre os enigmas das relações humanas e, mais do que isso, a apropriação cinematográfica desses enigmas. Aqui reencontramos a herança de alguns grandes mestres "não-alinhados" do classicismo made in USA (vale a pena recordar, por exemplo, o grande Preston Sturges) e também uma velha senhora que sabe sempre bem reencontrar: Shirley MacLaine.

Já agora, deixemos uma (anti)profecia: já vimos actores nomeados para o Oscar com composições muito menos complexas que a de Jack Black no papel de Bernie Tiede...

Crítica de João Lopes
publicado 17:18 - 27 julho '12

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