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Uma estética feita de clichés

Foi Prémio do Júri em Cannes/2018: "Cafarnaum", de Nadine Labaki, retrata a sobrevivência de uma criança nas ruas de Beirute e o mínimo que se pode dizer é que o filme divide, de forma clara e contundente, os seus espectadores.

Uma estética feita de clichés
Nadine Labaki e Zain Al Rafeea durante a rodagem de "Cafarnaum"
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 Uma estética feita de clichés
Cafarnaum Uma história cheia de significado politico, apresentando atores não profissionais, sobre uma criança libanesa de 12 anos que põe um processo judicial contra os seus pais. Filme vencedor do Prémio do Júri no Festival de Cinema de Cannes 2018. Nomeado ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro 2019.

Se o leitor procura alguma linha de informação que possa levá-lo a compreender o que está em jogo em "Cafarnaum", de Nadine Labaki, não posso deixar de o remeter para as memórias do Festival de Cannes de 2018. De facto, talvez não tenha havido filme que mais dividisse os espectadores, suscitando muitos entusiasmos (incluindo o Prémio do Júri) e muitas resistências.

Por mim, só posso voltar a dar conta dos sentimentos contraditórios com que recebo o trabalho de Labaki, cineasta nascida no Líbano, em 1974. Ao fazer o retrato de uma criança (Zain Al Rafeea) à deriva nas ruas de Beirute, ela toca em temas delicados e mobilizadores, confrontando-nos com a pobreza de um mundo afinal aqui tão perto... Ao mesmo tempo, o seu filme joga a velha cartada da fotogenia da miséria que tudo reduz a um colecção de pesados clichés.

Dir-se-ia que a estética de "Cafarnaum" consiste em combinar duas vertentes: por um lado, tratar os cenários com a rapidez fragmentada de um banal clip noticioso de televisão; por outro lado, inserir a sua criança nessa paisagem como se tivesse saído de uma publicidade asséptica, sem alma e sem história.

O facto de a criança processar os próprios pais (pelo destino a que a votaram) acaba por ser um pequeno truque dramático que não altera a lógica maniqueísta do filme. Seja como for, registe-se o facto de este tipo de narrativa colher frutos nos mais diversos contextos — "Cafarnaum" está mesmo nomeado para o Oscar de melhor filme estrangeiro, em representação do Líbano. 

Crítica de João Lopes
publicado 21:54 - 09 fevereiro '19

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