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Uma tragédia alemã

Christian Petzold, cineasta alemão, distingue-se por uma rigorosa geometria narrativa, sempre apoiada num elaborado trabalho com os actores: "Jerichow" confirma as suas qualidades.

Uma tragédia alemã
Um, dois, três... temas e fantasmas de um triângulo insólito
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 Uma tragédia alemã
Jerichow Thomas, um veterano do Afeganistão que foi desonrosamente exonerado, regressa à sua terra natal, Jerichow, onde é contratado como motorista por um empresário turco-alemão, proprietário de uma cadeia de snack-bar. Ao apaixonar-se por Laura, a mulher do patrão, nasce um clássico triângulo amoroso, que se desenrola no nordeste alemão. Apanhados pela culpa e pela liberdade, pela paixão e pela ...

"Jerichow", do alemão Christian Petzold, não será uma obra-prima. Mas é, por certo, um objecto cujas singularidades merecem uma atenção que, por regra, o mercado recusa aos seus produtos mais "frágeis". De facto, há nele uma energia vital que se fundamenta, antes de tudo o mais, numa caracterização social das personagens que nunca resvala para a "sociologia" fácil e moralista.

A matriz de "Jerichow" é o romance de James M. Cain, "O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes", publicado em 1934 (cujas adaptações mais célebres têm assinatura de Tay Garnett e Bob Rafelson, respectivamente em 1946 e 1981). Ou seja: um trio insólito, dois homens e uma mulher, que gera um impulso criminoso. Mais concretamente: Ali (Hilmi Sozer), cidadão de origem turca, é casado com a alemã Laura (Nina Hoss); Thomas (Benno Furmann) é um soldado alemão que, depois de ter sido afastado da sua missão no Afeganistão, se emprega na empresa de Ali, envolvendo-se com Laura...

A grande vantagem de "Jerichow" (o título refere-se à pequena povoação onde tudo acontece) é a sua frieza dramática. Não há, de facto, nenhuma tentativa de "universalizar" temas ou personagens. Bem pelo contrário, o filme cola-se aos seus protagonistas, dando-lhes espaço para se revelarem nas suas especificidades e fantasmas de comportamento. O resultado é uma crónica social que, a pouco e pouco, se transfigura em tragédia amorosa.

De Petzold, já tinhamos visto no mercado português "Yella" (2007), também com Nina Hoss, também marcado pela mesma rigorosa geometria narrativa. E pelos dois exemplos, o mínimo que se pode dizer é que há nele um sentido do retrato individual que passa sempre por um elaborado trabalho com os actores. Entretanto, o seu filme mais recente, "Barbara" (2012), é o candidato alemão à nomeação para o Oscar de melhor filme estrangeiro.

Crítica de João Lopes
publicado 03:01 - 17 setembro '12

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