Estreia  

Uma utopia asiática

Nome central da história moderna do cinema belga, Chantal Akerman está de volta às salas portuguesas, com "A Loucura de Almayer": uma versão livre do primeiro romance de Joseph Conrad, deambulando pelas ilusões e desilusões do colonialismo europeu.

Uma utopia asiática
Stanislas Merhar em cenário asiático: ser ou não ser, eis a questão
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 Uma utopia asiática
A Loucura de Almayer Algures no sudoeste da Ásia, numa aldeia perdida num rio grandioso e turbulento, um europeu agarra-se aos sonhos ilusórios por amor à filha. É uma procura pelo absoluto, uma história de paixão e loucura.

Chantal Akerman (nascida em Bruxelas, em 1950) é uma daquelas autoras do cinema europeu que, apesar de um importante trabalho regular desde a década de 70 (foi, nessa altura, um dos nomes revelados pelo Festival da Figueira da Foz), se tem mantido nas margens dos mercados. Daí que importe, no mínimo, sublinhar a importância desta estreia: "A Loucura de Almayer", o seu título mais recente, chegou às salas portuguesas (aliás, em paralelo com a retrospectiva que o DocLisboa lhe dedicou).

Tal como em "A Cativa" (2000), adaptado de "A Prisioneira", de Marcel Proust, também aqui se trata de refazer uma fortíssima referência literária: "Almayer's Folly", primeiro romance de Joseph Conrad, publicado em 1895. Refazer e deslocar: Akerman transfere a acção para a Malásia de 1950, preservando a dimensão trágica da personagem central, encarando a sua filha (nascida de uma mulher malaia que enlouqueceu) como a impossível concretização da sua utopia asiática.

Sendo uma tragédia intimista, "A Loucura de Almayer" está longe de ser um filme "psicológico", pelo menos no sentido tradicional que a classificação envolve. Aquilo que Akerman filma é a estranha e inquietante desproporção entre o desejo da personagem central e as determinações de um mundo que o seduz, tanto quanto com o confunde. No limite, Almayer simboliza as contradições do colonizador, dividido entre o delírio da sua visão e a crueza do lugar que ocupa.

Stanislas Mehrar, que já tinha sido o protagonista de "A Cativa", regressa interpretando a personagem de Almayer. A sua presença é também exemplar da lógica narrativa de Akerman e da sua pedagogia existencial (recorde-se que ela é também professora): mais do que um "intérprete" de estados de alma, ele é um corpo estranho ao cenário exuberante, por assim dizer procurando um lugar que concretize o seu imaginário e satisfaça a sua imaginação. "A Loucura de Almayer" é, afinal, uma odisseia sobre a difícil arte de construir uma identidade

Crítica de João Lopes
publicado 15:14 - 27 outubro '12

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