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Uma verdade feminina

Muitas vezes adaptado ao cinema, o clássico de Louisa May Alcott reaparece numa versão realmente pensada para o século XXI: "Mulherzinhas", de Greta Gerwig, é um reencontro feliz com a arte melodramática.

Uma verdade feminina
Rodagem de "Mulherzinhas": Greta Gerwig e Meryl Streep
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 Uma verdade feminina
Mulherzinhas A realizadora e argumentista Greta Gerwig (Lady Bird) apresenta uma versão de “Mulherzinhas” que se baseia não só no romance clássico de Louisa May Alcott, como também nas notas deixadas pela autora. Esta história, vai desdobrando-se no alter ego daa utora, Jo March, à medida que esta leva a sua vida real para a sua obra ficcional. Na opinião de Gerwig, a adorada história das irmãs March - quatro ...

A pergunta é, de uma só vez, formal e conceptual: como refazer, em cinema, neste nosso século XXI, o romance "Mulherzinhas", de Louisa May Alcott? E justifica-se não só porque se trata de um livro publicado em 1868, estranho à maior parte das actuais opções literárias dos grandes estúdios, mas também porque há todo um património de versões cinematográficas de "Mulherzinhas" que terá como pedra fundamental a produção de 1933, assinada por George Cukor.

Digamos, para simplificar, que na dupla condição de autora do argumento adaptado e responsável pela realização, Greta Gerwig contorna todos os clichés que pudessem envolver uma qualquer opção "revivalista". Mais do que isso: as suas luminosas "Mulherzinhas" são a ilustração muito clara (e apetece dizer: muito contundente) de uma arte narrativa que sabe pensar — e pensar-se — para o seu tempo, sem quebrar uma relação orgânica com a mais nobre tradição do melodrama cinematográfico.

As quatro irmãs March, vivendo com meios austeros no tempo da Guerra Civil Americana, surgem, assim, como um painel de comportamentos, pensamentos e emoções pontuado por uma questão nuclear: que significa ser mulher? Refazendo e, num certo sentido, contestando a linearidade factual do livro, Gerwig apresenta-nos, afinal, uma verdadeira demanda de identidade(s).

Jo, Meg, Amy e Beth vivem as alegrias e dramas de um tempo em que a sua condição vacila, ao mesmo tempo que lhes exige uma admirável capacidade de afirmação. Entenda-se: a descoberta/invenção de um discurso próprio que as demarque dos valores mais tradicionais que, eventualmente, podem limitar e delimitar a sua existência e, por fim, a verdade do feminino.

Além do mais, o filme de Gerwig revela o know how, visceralmente clássico, que atribui às singularidades dos actores — neste caso, das actrizes — uma função essencial de exposição de todas as convulsões e enigmas das personagens [video de rodagem].


Talvez seja inevitável referir com algum destaque a brilhante Saoirse Ronan, no papel de Jo, a "mulherzinha" que defende o seu desejo de ser escritora, mas importa não menosprezar as delicadas composições de Emma Watson, Florence Pugh e Eliza Scanlen (Meg, Amy e Beth, respectivamente). Sem esquecer, claro, a breve e primorosa participação de Meryl Streep no papel da tia velha, rabugenta e pragmática, numa palavra, sobrevivente.

Crítica de João Lopes
publicado 23:49 - 30 janeiro '20

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