Estreia  

John Carter sem histórias para contar

Algum cinema de aventuras continua a sofrer de um desequilíbrio fundamental: a gestão dos executivos dos grandes estúdios pesa mais que as opções artísticas. "John Carter", actualizando um herói de Burroughs, é mais um sintoma de tal situação.

John Carter sem histórias para contar
Taylor Kitsch como John Carter: um herói à procura do cinema que lhe falta
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Trailer/Cartaz/Sinopse:
 John Carter sem histórias para contar
John Carter John Carter (Taylor Kitsch), é inexplicavelmente transportado para o exótico e misterioso planeta Marte, vê-se envolvido num conflito de proporções épicas e percebe que a sobrevivência de Barsoom e do seu povo está nas suas mãos.

No vasto panorama da imprensa internacional, com natural destaque para a dos EUA, a maior parte das notícias e análises que encontramos sobre "John Carter" têm a ver com as previsões de uma fraca performance nas bilheteiras dos EUA (entretanto, já confirmada).

Provavelmente, em alguns casos, tal reflecte uma evidente fraqueza dos discursos de raiz jornalística; mas, no fundo, compreende-se que assim aconteça: estamos menos perante um objecto de cinema e mais face a um problemático investimento financeiro.

Na verdade, as leis e valores do cinema de aventuras têm vindo a ser pervertidas por toda uma economia cinematográfica que passou a estar dependente menos de opções artísticas e mais de directivas enunciadas por departamentos executivos com uma visão meramente tecnocrática do cinema.

Não está em causa que tal sistema possa gerar também coisas absolutamente admiráveis (afinal, "A Invenção de Hugo", de Martin Scorsese, nasce no mesmíssimo território industrial). Está em causa, isso sim, que a concepção instrumental dos filmes contribua, com frequência, para o seu esvaziamento temático e até para a sua banalização espectacular, a ponto de se esbanjarem trunfos como aqueles que "John Carter" coloca em jogo.

Porque, enfim, tratava-se de recuperar um herói com 100 anos -- foi criado em 1912 por Edgar Rice Burroughs, o escritor que nos legou a personagem de Tarzan --, não apenas de coleccionar imagens mais ou menos agitadas, com sons mais ou menos estridentes. Poderia até supor-se que a estreia de Andrew Stanton ("À Procura de Nemo", "WALL-E") com a chamada "imagem real" se traduzisse numa mais-valia visual e iconográfica...

Infelizmente, predomina um claro desinvestimento na simples arte de contar histórias, triunfando uma ostentação de meios (os célebres e cada vez mais supérfluos "efeitos especiais") que transforma as aventuras de John Carter (Taylor Kitsch) no planeta Marte numa colagem de números que, na melhor das hipóteses, imitam um banal jogo de video.

Em boa verdade, as notícias que dramatizam as perdas financeiras do filme acabam por passar ao lado do essencial. Nenhum filme é interessante, nem suspeito, apenas por ter sido caríssimo (e este terá custado 250 milhões de dólares, valor que dava para produzir várias décadas de cinema português...). Acontece que não são os cifrões que garantem as subtilezas do espectáculo -- é preciso acreditar no poder de imaginação e sedução desse mesmo espectáculo.

Apesar de tudo, vale a pena deixar uma nota optimista: na melhor das hipóteses, "John Carter" vai relançar o interesse pela (re)descoberta dos livros de Edgar Rice Burroughs.

Crítica de João Lopes
publicado 01:19 - 15 março '12

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