Os Grandes Portugueses
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O carismático general do monóculo e pingalim não deixou ninguém indiferente. Afastado de um alto cargo das forças armadas poucos meses antes do 25 de Abril, destacou-se ao publicar “Portugal e o Futuro”. Em 25 de Abril de 1974, como representante máximo do movimento das forças armadas, recebeu de Marcello Caetano a rendição do Governo. Foi o primeiro Presidente da República após a Revolução. Descontente com a viragem à esquerda do País, tentou impedi-la mas teve de fugir para Espanha, no final de 1974. Por fim, o Presidente Mário Soares reconheceu os seus serviços e nomeou-o chanceler das Ordens Militares.

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“Se alguém merece o título de marechal é o primeiro general de Abril: António de Spínola”, disse o poeta e político Manuel Alegre. António de Spínola distinguiu-se como governador militar da Guiné-Bissau em 1968 e, de novo, em 1972, no auge da guerra colonial. Nesse cargo, o seu prestígio teve origem na política de respeito pela individualidade das etnias guineenses e na associação das autoridades locais à administração colonial. Em simultâneo, continuava a guerra por todos os meios ao seu dispor, que iam da diplomacia secreta às incursões armadas em países vizinhos.

Político e militar, foi o primeiro Presidente da República após a Revolução de 1974. Oriundo de uma abastada família alentejana, o seu pai foi inspector-geral das Finanças e chefe de gabinete de Salazar no Ministério das Finanças. Desde jovem optou pela carreira militar. Ingressou no Colégio Militar com 10 anos e manteve essa fidelidade de “menino da Luz” até ao fim da vida. Construiu uma longa carreira, com passagem pela GNR, missões militares a Espanha após a Guerra Civil e à frente alemã no Leste durante a II Guerra Mundial, e várias comissões de serviço em Angola. Em Novembro de 1973, de regresso à metrópole, foi convidado por Marcello Caetano para a pasta do Ultramar, cargo que recusou, por não aceitar a intransigência governamental face às colónias.

Foi nomeado vice-chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, em Janeiro de 1974, por sugestão de Costa Gomes, outro protagonista da “Revolução dos Cravos”, cargo de que foi afastado em Março. Pouco tempo depois publicou “Portugal e o Futuro”, onde expressava a ideia de que a solução para o problema colonial português passava por outras vias que não a continuação da guerra.

Em 25 de Abril de 1974, como representante máximo do movimento das forças armadas, recebeu do presidente do Conselho de Ministros, Marcello Caetano, a rendição do Governo, que se refugiara no Quartel do Carmo, em Lisboa. Spínola assumiu, assim, os poderes públicos. No âmbito da Junta de Salvação Nacional, entretanto instituída, foi escolhido pelos restantes membros para o cargo de Presidente da República. Exerceu a função de 15 de Maio de 1974 até à sua renúncia, em 30 de Setembro do mesmo ano, altura em que foi substituído pelo general Costa Gomes.

Descontente com o rumo dos acontecimentos em Portugal, designadamente pela profunda viragem à esquerda, à qual tinha aderido grande número de militares, tenta impedi-la. Vê-se obrigado a fugir para Espanha após o golpe falhado de 28 de Setembro de 1974. Apelara a uma “maioria silenciosa” para se fazer ouvir contra a radicalização política que se vivia.

Visto, por muitos, como um mero cabo-de-guerra e, por outros, como um grande general, ninguém ficou indiferente ao seu carisma e personalidade. Cultivava zelosamente o seu perfil público de austeridade, geriu como poucos militares portugueses a sua imagem e sempre se rodeou de amigos e dos mais fiéis, que o acompanharam ao longo da vida. Às vezes, parecia uma sombra inacessível.

O professor universitário Medeiros Ferreira diz dele, de forma enigmática, que “foi um grande português no sentido em que tentou sempre ser um grande português”. A sua importância no início da consolidação do novo regime democrático foi reconhecida oficialmente pelo Presidente Mário Soares, que o nomeou chanceler das Ordens Militares Portuguesas. “Gestor de capitais simbólicos da República”, apelidou-o o jornalista Mário Mesquita.

Foi também condecorado com a grã-cruz da Ordem Militar da Torre e Espada, a maior insígnia militar portuguesa, pelos “feitos de heroísmo militar e cívico e por ter sido símbolo da Revolução de Abril e o primeiro Presidente da República após a ditadura”. Faleceu com a distinção de marechal do exército português. De António de Spínola pode dizer-se, sem equívoco, que foi uma das figuras mais controversas da história contemporânea nacional.


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