Pintor da corte de D. Afonso V, conhece-se pouco sobre a história de Nuno Gonçalves. Mas para ter um lugar reservado na história, basta ter pintado as sinuosas curvas dos “Painéis de São Vicente”, prolongadas no infinito. Foi um criador extraordinário que deixou uma inigualável obra e um legado ímpar no panorama artístico internacional. “Foi um pintor brilhante, não apenas da história da pintura portuguesa, mas da pintura europeia”, assegura Dalila Rodrigues, directora do Museu Nacional de Arte Antiga.
Foram precisos séculos para se descobrir a obra-prima deste génio da pintura, especialmente no que se refere à sua técnica como retratista, bem presente no seu único trabalho reconhecido: a pintura do altar do Convento de São Vicente.
O políptico de São Vicente (hoje no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa) consiste em seis painéis, dois largos e quatro mais estreitos, dominados pela figura de São Vicente. “São um impressionante retrato colectivo de Portugal”, diz, convicta, Dalila Rodrigues. No maior de todos, o “Painel do Infante”, o santo é venerado por um grupo de nobres, entre os quais se encontra D. Afonso V. No “Painel do Arcebispo”, o mesmo santo é rodeado por clérigos e cavaleiros. Nesta portentosa galeria de figuras agrupadas numa composição medieval, sente-se uma meditação na peregrinação das almas de cristãos, numa viagem de descoberta à volta do santo patrono.
É o trabalho de um mestre que revela alguns traços das artes italiana e flamenga, mas que também exibe os seus próprios atributos: economia de linha e pincelada brilhante; soberba caracterização, e mestria de composição. Todas estas características são unidas e subordinadas a uma visão religiosa. Como grande parte das obras-primas mundiais, os “Painéis de São Vicente” (descobertos em 1882 no Convento de São Vicente) ainda geram diferentes interpretações. É “uma obra enigmática que ainda hoje alimenta polémicas e que alimentá-las-á constantemente, tal a sua profundidade”, revela o bispo auxiliar de Lisboa, D. Manuel Clemente.
Há quem defenda que as figuras representadas nos painéis são uma espécie de homenagem nacional, da corte e de outros grupos sociais, à figura de São Vicente, mártir padroeiro de Lisboa. É a chamada tese vicentina. Outra corrente assegura que a obra se refere sobretudo ao “Infante Santo”, D. Fernando. É a tese fernandina. “Seja quem for que está representado, o que está ali é Portugal”, conclui D. Manuel Clemente.
Numa época em que o País se começava a projectar externamente, Nuno Gonçalves conseguiu interpretar um povo que faria conquistas por “mares nunca dantes navegados” e elevaria o nome de Portugal pelo mundo. A sua arte “é um prenúncio único de uma história e de uma aventura nacional e internacional”, diz o bispo auxiliar de Lisboa.
A sua pintura, essa sim, não gera polémica. Francisco de Holanda, no seu diálogo “Da Pintura Antiga”, de 1548, refere-se a Nuno Gonçalves como uma das “águias” da pintura, a par dos grandes nomes do Renascimento, como Leonardo da Vinci e Miguel Ângelo. O grande traço do artista é a sua qualidade como retratista, “a sua poderosíssima caracterização fisionómica e psicológica do rosto”, analisa a directora do Museu Nacional de Arte Antiga. O políptico de São Vicente é uma obra quase isolada na produção artística internacional. Como refere o historiador da arte Anísio Franco, “não há nenhum outro pintor a pintar 60 figuras, caracterizadas individualmente daquela forma”, e só no século XVII surgem obras equivalentes. É, portanto, “um homem moderníssimo no seu tempo e com uma qualidade artística fora do comum”, conclui o historiador.
Contudo, apesar de ter sido um mestre do século XV, o seu nome e trabalhos perderam-se na história. A sua obra-prima, executada para a Catedral de Lisboa, foi destruída no terramoto de 1755 e não há a certeza se terá sido o autor de um “Cristo atado à coluna” (que se encontrava no Mosteiro da Trindade), nem de um grande retábulo da Capela do Paço de Sintra. No entanto, estas obras foram-lhe atribuídas pelo mesmo Francisco de Holanda.
Mesmo sendo dono de um talento inigualável, foi apenas em 1931, quando a sua obra foi exposta em Paris, que Nuno Gonçalves recebeu o reconhecimento internacional que merecia. Tardio, mas valioso para Portugal.
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