Foi rei do período de ouro de Portugal. No reinado de D. Manuel I descobriu-se o caminho marítimo para a Índia e o Brasil e assegurou-se o controlo das rotas comerciais do oceano Índico e do golfo Pérsico. Foi o único rei a quem se associou um estilo artístico - o Manuelino. Reformador, hábil, ambicioso e pacificador, “o Venturoso” foi, de todos, o rei português mais prestigiado na Europa e no mundo. Não é para menos: “Geriu o primeiro império intercontinental do mundo”, lembra o ex-ministro das Obras Públicas Ferreira do Amaral.

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Rei extraordinário da dinastia de Avis, D. Manuel I dirigiu Portugal na sua época mais gloriosa. Criou um império nascido do mar e tornou-se num dos soberanos mais ilustres da Europa. “Estabeleceu o que a Humanidade não conhecia - um império intercontinental - e pôs Portugal nos píncaros”, diz o ex-ministro das Obras Públicas Ferreira do Amaral, admirador convicto de um “dos melhores reis” portugueses.

O 14.º rei de Portugal nasceu na vila de Alcochete em 31 de Maio de 1469. Era filho do infante D. Fernando, filho do rei D. Duarte, duque de Viseu e de Beja, e de D. Beatriz, filha do infante D. João. D. Manuel sucedeu ao primo direito, o rei D. João II, em 1495. Cognominado “o Venturoso” ou “o Felicíssimo”, devido aos acontecimentos vitais que ocorreram durante o seu reinado, sobretudo as descobertas do caminho marítimo para a Índia e do Brasil.

Persistente, trabalhador e com habilidade notável, D. Manuel “procurou sistematicamente demonstrar à Europa que era capaz de fazer coisas que nenhum europeu o era desde o tempo dos Romanos ou dos Gregos. E conseguiu”, diz João Oliveira e Costa, historiador.

Subiu ao poder quando todos desconfiavam das suas capacidades, mas surpreendeu. Conhecia como ninguém a corte portuguesa. Durante a infância e juventude, assistiu à intriga e conspiração entre a aristocracia e o rei D. João II. Alguns homens do seu círculo próximo foram mortos ou exilados, incluindo o irmão mais velho, D. Diogo, duque de Viseu, assassinado pelo próprio rei. D. Manuel estava lá, naquele quarto, perto do armário onde se deu o homicídio. Em 1493 recebeu uma ordem real de comparência no Paço e, preocupado com o chamamento, foi surpreendido com a sua nomeação como herdeiro da coroa pelo próprio D. João II.

D. Manuel herdou um país completamente dividido, mas, com a habilidade de um equilibrista, geriu bem as diferenças. Lutou contras as guerras internas como contra uma ferida. Uniu Portugal. “Governou com a nobreza pacificada e não contra ela”, comenta João Oliveira e Costa. Conseguiu que o poder central fosse sempre respeitado. As Cortes foram reunidas apenas três vezes durante todo o seu domínio e sempre no Paço de Lisboa.

Rapidamente se dedicou à reforma dos tribunais e do sistema tributário, áreas sob sua jurisdição, adaptando-os ao progresso económico do País. “A sua grandeza está na forma como foi um grande reformador. Reorganizou administrativamente o País e tornou-o funcional”, justifica o historiador. Um rei que apoiou os descobrimentos e soube desenvolver monopólios comerciais. Foi durante o seu reinado que Vasco da Gama descobriu o caminho marítimo para a Índia e que Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil. Em 1501 e 1502 patrocinou viagens para ocidente, alcançando a Gronelândia e a Terra Nova. Também sob seu comando, D. Francisco de Almeida tornou-se no primeiro vice-rei da Índia e o almirante D. Afonso de Albuquerque garantiu o controlo das rotas comerciais do oceano Índico e do golfo Pérsico, além de conquistar as importantes cidades de Malaca, Goa e Ormuz.

Mas os méritos não ficaram por aqui. Em 1506, conseguiu que o Papa Júlio II aprovasse o célebre Tratado de Tordesilhas. Estabeleceu ainda importantes contactos comerciais e relações diplomáticas com a China e a Pérsia. Em Marrocos, realizou conquistas relevantes, como Agadir, Azamor e Safim, e fez erguer Mazagão. “Gradualmente, montou um império onde as pessoas que estavam no Brasil seguiam para Malaca, as que se encontravam no Norte de África iam para o Congo… Um império global”, admira Ferreira do Amaral. Tarefa monumental. Imagine-se o que era, naquele tempo, construir e organizar um império que englobava quatro continentes. D. Manuel foi o primeiro rei na história universal a consegui-lo.

Todos estes feitos tornaram Portugal um dos países mais ricos e poderosos do mundo. “Foi a época de ouro, onde nada no mundo se fazia sem Portugal”, refere Ferreira do Amaral. O rei organizava e comandava tudo, “devia trabalhar 24 horas por dia!”.

“O Venturoso” utilizou a riqueza para construir edifícios reais, num estilo muito próprio, mais tarde denominado “manuelino”, o estilo que segundo o filósofo catalão Eugenio D’Ors deu origem ao Barroco. Grandes exemplos são o Mosteiro dos Jerónimos e a Torre de Belém. Fermentou, por isto, algum azedume e não conseguiu evitar os primeiros sons de descontentamento. Mas nem por isso deixou de cobrar os seus sonhos - alguns megalómanos, dizem os críticos mais ferozes. “O único rei português a quem se associou um estilo não só arquitectónico mas artístico. Deixou a sua marca impressa na pedra, nas mais variadas obras de arte, por todo o país e por todo o império”, menciona João Oliveira e Costa. Houve, durante o seu reinado, preocupação em uniformizar as técnicas artísticas que permitiram distinguir-lhe um estilo. D. Manuel I não procurou distanciação estética. Fazia questão em acompanhar passo a passo as obras e as decorações. “Patrocinava as artes”, diz o historiador. Além disto, soube atrair os melhores sábios para a corte de Lisboa, em quem depositava confiança cega. “Nenhum outro rei português terá sido tão bem-visto pelos seus pares e causado tanta inveja. Francisco I falava dele como ‘rei merceeiro’, mas quem dera a Francisco ter a mercearia de D. Manuel I”, ironiza João Oliveira e Costa. A sua consagração europeia aconteceu com a aparatosa embaixada a Roma, chefiada por Tristão da Cunha em 1513. O rei declarou, definitivamente, guerra ao tédio.

Enviou ao Papa Leão X magníficos presentes, como jóias e tecidos, além de um belíssimo cavalo persa e de um elefante que fazia várias habilidades. Uma das muitas exuberâncias que encantaram as curiosas cortes europeias foi o rinoceronte trazido das Índias, que acabou por assumir papel preponderante na arte italiana. A extravagância valeu-lhe algumas críticas.

O rei era um homem religioso que investiu na construção de igrejas e mosteiros, assim como na evangelização das populações dos novos domínios através de missionários católicos. Na cultura, fez a reforma dos Estudos Gerais, criando novos planos educativos e bolsas de estudo. Foi também na sua corte que emergiu Gil Vicente, o pai do teatro português.

O principal golpe na sua vida aconteceu quando a mulher, D. Isabel, morreu durante o parto, pondo ponto final no sonho de reunificar a Península Ibérica sob a égide da dinastia portuguesa. Ferreira do Amaral lembra que “D. Miguel, o seu primeiro filho, seria o rei de toda a Ibéria, se não tivesse morrido muito jovem”. Casou pela segunda vez, com D. Maria, também filha dos Reis Católicos, e uma terceira vez, com D. Leonor de Habsburgo.

D. Manuel morreu pacificamente em Lisboa em 13 de Dezembro de 1521 e foi sepultado numa das suas obras emblemáticas - o Mosteiro dos Jerónimos. Deixou a imagem de uma pessoa suave mas ambiciosa. Um rei que pôs a marca portuguesa em todos os cantos do globo. Na altura em que viveu, foi o dono do mundo.


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