O que faz a diferença entre os talentos medianos e os talentos grandiosos é, geralmente, a maior dose de coragem. Bartolomeu Dias foi um destes homens que não cedem às restrições do medo e vivem no fio da navalha. “Ele fez algo notável, não só para a história de Portugal como da Humanidade”, diz a escritora Ana Maria Magalhães. “Foi o homem que transformou o cabo das Tormentas no cabo da Boa Esperança devido à sua coragem para vencer o gigante ‘Adamastor’”, acrescenta o deputado João Soares. Hoje, é uma lenda com o tamanho de um homem.
Esta metáfora - a de transformar algo tenebroso em algo prometedor - ainda hoje é inspiradora. Bartolomeu Dias marca um ponto de viragem absolutamente decisivo na história de Portugal. Sem o seu feito, os portugueses não teriam chegado à Índia. Destronou uma concepção antiquíssima e reedificou um saber novo para a Humanidade. Pormenor essencial: comandou e equipou uma tripulação em condições muito adversas, “por mares nunca dantes navegados”, por águas desconhecidas, até aí consideradas tenebrosas. “Foi protagonista - e com êxito - de um momento fulcral da nossa história: a descoberta da comunicação directa entre dois mundos”, atesta Luís Adão da Fonseca, historiador e vice-reitor da Universidade Lusíada. “Um feito de carácter náutico que foi o ponto de partida para todas as viagens posteriores.”
Bartolomeu Dias era um marinheiro profissional, que começou a sua carreira como capitão do barco que fazia a rota do mediterrâneo. “Com ele, foi a primeira vez na história que foi possível ligar dois mares que se pensavam incomunicáveis, segundo a antiga concepção que vigorava na Europa desde a Antiguidade”, diz a aspirante Catarina Martins, do departamento de investigação do Museu de Marinha.
Ignora-se onde e quando nasceu. Sobre a sua família, sabe-se apenas que um parente, Dinis Dias e Fernandes, terá comandado expedições marítimas ao longo da costa do Norte de África na década de 1440 do século XV, tendo visitado as ilhas de Cabo Verde.
Vejamos, então, aos factos históricos. Em 1486, D. João II confiou a Bartolomeu Dias o comando de duas caravelas com o intuito público de saber notícias de Preste João. O propósito não declarado da expedição era, afinal, investigar a verdadeira extensão para sul das costas do continente africano, de forma a avaliar a possibilidade de um caminho marítimo para a Índia.
A expedição partiu de Lisboa em Agosto de 1487. Em Dezembro atingiu a costa da actual Namíbia, ponto mais a sul cartografado pela expedição de Diogo Cão. Continuando para sul, descobriu primeiro angra dos Ilhéus, sendo assaltada em seguida por um violento temporal. Treze dias depois procurou a costa, encontrando apenas o mar.
O “plano de batalha” de Bartolomeu Dias? Aproveitar os ventos vindos da Antárctida, que sopram vigorosamente no Atlântico Sul, e navegar para nordeste, redescobrindo a costa, que aí já tinha a orientação este-oeste (já para leste do cabo da Boa Esperança). Assim fez. Continuou para leste, cartografando diversas baías da costa da actual África do Sul (úteis no futuro como portos naturais), e chegando até à baía de Algoa, 800 km a leste do cabo da Boa Esperança.
No entanto, nessa altura a tripulação, revoltada, obrigou o capitão a regressar a Portugal pela linha da costa, para oeste. Na viagem de regresso, com a costa sempre visível, descobriu o cabo das Agulhas, o ponto mais a sul do continente. Mais importante ainda: descobriu o cabo das Tormentas, actual cabo da Boa Esperança, cuja longitude tinha contornado por alto mar na viagem de ida. “Bartolomeu Dias recebeu a incumbência de protagonizar um conjunto de viagens fulcrais na nossa história. Foi um dos homens-chave na definição da rota adequada para chegar ao Sul de África”, sublinha Luís Adão da Fonseca.
Regressou a Lisboa em Dezembro de 1488. Foi capitão de um dos navios da expedição de Vasco da Gama, que partiu em 1497. Em 1500, acompanhou Pedro Álvares Cabral na famosa viagem em que este descobriu o Brasil. Quando a frota seguia para a Índia, o navio em que ia Bartolomeu Dias naufragou e, numa sublime ironia do destino, o valente marinheiro achou a morte junto da sua mais famosa descoberta, o cabo da Boa Esperança. “A vida tem destas coisas. Com a sua coragem, ele provou que o cabo das Tormentas era algo torneável, desde que se aprendesse a navegar como ele navegou. Acabou por lá morrer”, diz o fadista João Braga. E este facto simbólico - o de ter passado o cabo e lá morrer, 11 anos depois - torna Bartolomeu Dias ainda mais lendário. “O ‘Adamastor’ vingou-se do seu vencedor”, decifra o historiador João Paulo Oliveira e Costa.
A história de Bartolomeu Dias resume-se, portanto, em duas ideias: foi o primeiro navegador a velejar longe da costa no Atlântico Sul, e a sua viagem, continuada por Vasco da Gama, abriu o caminho marítimo para a Índia. “Ele tinha audácia e coragem”, explica Catarina Martins. “Se demos ‘novos mundos ao mundo’, deveu-se muito ao contributo de Bartolomeu Dias.”
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