A Jogada

Joaquim Rita

2008-08-22 09:08:04

Nelson Évora herói levado nas asas do vento

Nelson Évora herói levado nas asas do vento
LusaA alegria estampada no rosto de Nelson Évora Pensar que foi o cansaço dos fracassos acumulados que nos fez vibrar tão intensamente com o sucesso de Nelson Évora, ao conquistar a medalha de ouro, no triplo salto, nos Jogos Olímpicos, seria beliscar a extraordinária proeza do homem que, levado nas asas do vento, saltou mais longe no «ninho do pássaro» de Pequim.
Ontem foi o dia em que, religiosamente, marcámos encontro com o destino para voltar a ser felizes - orgulhosamente felizes. Havia um Portugal algo desconfiado, senão mesmo descrente, face ao fracasso de uns e à infelicidade de outros. Nelson Évora era tudo o que nos sobrava de esperança, depois de nos terem impingido tantos sonhos...

Salvo a lição de garra, coragem e sofrimento de Vanessa Fernandes e o galo de Gustavo Lima em não chegar ao podium, até ontem, de Pequim, tinham chegado, sobretudo, palavras. Ditas a destempo, muitas vezes sem sentido, quase sempre vazias de coerência. E esse desvario assemelhou-se a uma ventania que varreu atletas, Vicente Moura (anunciou o abandono da presidência do Comité Olímpico e ontem já estava disponível para continuar...), o próprio Secretário de Estado, Laurentino Dias (falou só para... não dizer nada). Mesmo Vanessa Fernandes, quando saiu a terreiro para acusar colegas de competição, pareceu fazê-lo ancorada na sua medalha de prata, sobrando-lhe em presunçoso moralismo o que lhe faltou em serenidade, isenção e solidariedade competitiva.

Deixemos o palavreado para sorvermos a felicidade que Nelson Évora nos ofereceu, numa prova em que, para um leigo na ciência polidisciplinar do atletismo, nos pareceu ter sido possível porque, logo no seu primeiro ensaio, Nelson Évora engatou 17,31 metros, seguindo-se 17,56 m, o que lhe terá proporcionado confiança, tranquilidade e asas, afinal, o que malsinadamente faltou a Naide Gomes.

Não é preciso ser da arte do atletismo para perceber o peso da exemplar ligação de Nelson Évora ao seu treinador João Ganço, construída em anos de trabalho, numa carreira de sucesso que ontem teve o seu ponto mais alto. ...A propósito: Francis Obikwelu melhorou assim tanto desde que foi para Espanha e passou a ser treinado por uma espanhola?

A embriaguez de felicidade proporcionada pela medalha de ouro de Nelson Évora leva a que nos interroguemos sobre as mudanças que se constatam no atletismo português. Depois do fulgor em especialidades que nos valeram ouro olímpico e nas quais o sacrifício constituía a base do sucesso - Carlos Lopes e Rosa Mota na maratona e Fernanda Ribeiro nos 10.000 metros - Portugal consegue um novo herói olímpico numa especialidade tremendamente técnica, tal como poderia ter acontecido com Naide Gomes. É óptimo que tenhamos evoluído tanto em matéria tão elaborada e científica como são os saltos, mas já faltam respostas para o desaparecimento de atletas de fundo. Foram os africanos que nos obrigaram a desistir? E na Europa?

Neste momento de encanto sabe bem recordar Ary dos Santos na sua «estrela da tarde» quando ele escreveu que «foi a tarde mais bela de todas as tardes que (desde há muito) nos aconteceu», proporcionada por um salto para a história. Talvez Nelson Évora prefira cantar o «valeu a pena», de autoria do professor Moniz Pereira. Como se trata de atletismo...





por : Joaquim Rita
Tags : Nelson Évora,Pequim 2008

JOAQUIM RITA
Perfil biográfico:
- Iniciou a carreira de jornalista em 1968, no jornal «A BOLA», onde foi colaborador, redactor e chefe de Redacção.
- Director de «A Bola Magazine»
- Director -adjunto de «O JOGO»
- Comentador de futebol na SPORTtV
- Comentador de futebol na RDP (Antena 1)
- Jornalista português que vota para a eleição da «Bola de Ouro da revista «France Football»


Presenças em grandes competições de futebol:
- Campeonatos do Mundo de 1990, 1994, 1998 e 2006
- Campeonatos da Europa de 1984, 1988, 1992, 2000 e 2004
- Finais da Taça (Liga) dos Campeões de 1991, 1993, 1997
- Final da Taça UEFA de 1987
- Final da Taça das Taças de 1992
- Fase final da Taça das Nações Africanas de 1992

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