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Regresso à Alemanha, regresso à neve, à escuridão, àquela "depressãozita" sulista e não ver e ter o sol a adentrar o frio e a aquecer a pele nem que só por um bocadinho. O dia de folga é mesmo isso: fazer o apenas essencial. Neste caso comer um buffet grego, ir às compras ao supermercado, beber uns canecos da bela cerveja alemã e adormecer a ver um filme no computador. As viagens até ao clube mantidas ao mínimo no dia de concerto, os pés não estão habituados à neve que por muito bela que seja não consegue emprestar ao sítio essa beleza e plenitude branca. Um pouco como o concerto que por muito calor transmita não consegue muito mais do que manter uma audiência morna por natureza no seu conforto mais imobilista quebrado pelo sempre bem-vindo aplauso.
O jantar de veado ao som de Gorgoroth tem um quê de natalício mas é tempo de ir embora de Dresden em direcção a Weimar, uma das terras mais importantes da cultura alemã, outrora capital do ducado.
Vejamos uma pequena lista dos residentes ilustres de Weimar:
Johann Sebastian Bach, Hector Berlioz ,Peter Cornelius, Marlene Dietrich, Johann Wolfgang von Goethe, Nina Hagen, Wassily Kandinsky, Paul Klee, Franz Liszt, Friedrich Nietzsche, Friedrich Schiller, Arthur Schopenhauer, Richard Strauss, Richard Wagner, Carl Zeiss...
Aliás há um feeling bastante cultural esta noite, já que o sítio concerto está mais propriamente para um CCB do que para uma sala rock. Aqui na terra de tanta ilustre gente os mundos misturam-se, em Portugal, separaram-se. Cá estão os Moonspell fazendo a sua pequena parte para unir culturas logo mais à noitinha.
Nem parece verdade. O imaginário que este nome traz consigo é poderoso, colou famílias Portuguesas coladas à televisão e ganhou espaço no nosso panteão e léxico. Uma realidade tão próxima como distante já que daqui do clube apenas se vê uma silhueta prateada num fundo de céu azul...
O estado do Texas é quase como se fosse um país diferente dos EUA, com leis , visões e poderes próprios que se notam na atitude orgulhosa dos texanos, na maneira como comportam e vêem o mundo. Don't mess with Texas.
Hoje é também um dia de nervos para todos os bateristas da tour já que há uma visita prometida do Vinnie Paul, baterista dos Pantera e amigo de longa data de muita gente desta tour. A noite adivinha-se longa e o stock de bebidas foi reforçado no camarim de Danzig, para onde muita gente se deve dirigir após os concertos.
Hoje janta-se cedo e em ambiente quase de família, as boas tours são assim. Entrevisto o Black Label Dave (na foto tremida connosco...) e já se ouvem os primeiros acordes da primeira banda. É tempo de trocar as teclas pelos gritos. Até amanhã... vou vestir-me.
Existe aquela ideia que a vida na estrada é uma festa, um corrupio para o qual as 24 horas do dia são insuficientes, uma adrenalina que puxa cada vez mais e que nos entrega ao nosso beliche exaustos, satisfeitos ou frustrados, mas sempre no limite das nossas forças. Quem nos visse aqui hoje, no meio do nada, num clube de rock à americana (lembram-se do filme Roadhouse com o Patrick Swayze?), provavelmente iria começar a reconhecer, como quem vive esta e desta vida, que não é necessariamente assim.
Também há noites lentas, de considerável pasmaceira e chuva miudinha, que puxam à preguiça (os Estados Unidos são tão complicados depois de Nova Iorque...) e a questões mais ou menos existenciais como: " o que dizer a um teclista de uma banda de Black Metal, quando este espirra? Santinho (bless you) ou Maldito sejas! (curse you) ???" São estes tipos de questões que me ocorrem nesta Segunda, prestes a transformar-se em Terça ai por terras de Portugal. Uma Segunda onde a nossa companhia de merchandise se esqueceu de nos enviar um reforço de t-shirts, vamos só vender CDs e palhetas, onde levei uma banhada de uma entrevista para a qual me levantei de propósito da cama, e por aí fora.
Just another manic Monday, cantavam as Bangles, com razão intemporal, penso eu no palco, com a barriga a dar horas, enganada por batatas/tortillas e cerveja corona. Pensando no banho quente que se segue e o jantar de carne assada à espera no frigorifico.
Mas não trocava o meu aborrecimento pelo o dos outros.
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