O projeto nasceu quando, em meados dos anos noventa do séc XX, Rita Marquilhas estava a estudar os usos da escrita na sociedade portuguesa do séc XVII. A investigadora precisava de dados estatísticos "Precisava de saber, por exemplo, em Portugal, quantas pessoas eram capazes de assinar o seu nome e para ter material suficiente fui explorar os riquíssimos Arquivos da Inquisição que têm muitos interrogatórios a testemunhas, a réus, que os descrevem no início e os obrigam, no final, a assinar o seu testemunho se o souberem fazer ou, se fossem homens, a assinar de cruz se não o soubessem fazer ou, se fossem mulheres, a serem representadas por um procurador na sua assinatura; isto obrigou-me a folhear com atenção quer os processos da Inquisição quer os pendentes a que se chamava os Cadernos do Promotor, e comecei a descobrir, assim como nos romances policiais, por acaso, alguns papéis muito estranhos." Depois de um conjunto de seis cartas que eram, aparentemente, correspondência entre um preso e a sua mulher, mas na verdade eram cartas escritas por uma criança de 12 anos, filho do preso, tentando tranquilizar a madrasta em relação às condições do cárcere, Rita Marquilhas apercebeu-se de que havia, "ao lado das tais assinaturas de que estava à procura, muitas histórias ilustradas por um tipo de voz que não sobreviveu muito na memória guardada pelos arquivos, neste caso uma criança, mas depois vi mulheres, vi criados e escravos , vi pessoas das elites mas apanhadas em momentos do seu quotidiano de que também não deixavam memória e percebi que sózinha não podia fazer muito, mas que uma equipa poderia encontrar ali muito material para ilustrar quer a mudança da língua portuguesa no tempo quer as crenças, as razões, que animavam indivíduos de todos os estratos sociais em relação ao mundo que os rodeava."
O projeto vai desenvolver-se em Portugal e Espanha e fará uma abordagem interdisciplinar destes documentos.