Excerto da entrevista:
APG - Professor Jerry Coyne, depois de tantos anos a estudar e a ensinar evolução e a escrever sobre ela em jornais e revistas, decidiu escrever um livro. Porquê?
JC- Duas razões, acho, queria partilhar o meu entusiasmo pela Evolução com outras pessoas, mas também porque as razões para esta teoria ser tão largamente aceite, bem, é mais do que uma teoria, é um facto, mas essas razões não são muito bem conhecidas, mesmo entre os biólogos que estudam Evolução temos tendência a aceitar o que nos dizem que é verdade mas neste caso é mais importante perceber as razões, porque pelo menos nos Estados Unidos e em grande medida em Portugal a Evolução não é aceite. Eu esperava – é provavelmente uma esperança infundada – que apresentando as evidências da Evolução as pessoas acabassem por aceitá-la. Na América apenas 40% dos cidadãos aceitam que a Evolução é uma verdade e apenas 16% a aceitam tal como a ciência a define: como um mecanismo natural, não guiado.
Portanto temos muita oposição à Evolução, em Portugal 40% das pessoas também não aceitam a Teoria, temos 60% que a aceitam o que é melhor do que os 40% dos Estados Unidos mas ainda está longe de ser uma teoria universalmente aceite e eu esperava, ao escrever este livro, que as pessoas acabassem por ver que esta não é apenas uma teoria verdadeira mas uma teoria científica muito entusiasmante e unificadora. Pode ter sido uma esperança vã porque continua a haver muita resistência à Teoria da Evolução, que não tem nada a ver com o conhecimento dos factos.
APG - Foi por isso que escolheu um título tão “forte” para o seu livro: Porque é que a Evolução é uma “Verdade”?
JC- Eu gosto de títulos curtos e concisos. O título é sobre a justeza da Evolução, por isso é um título preciso. Imagino que possa deixar as pessoas zangadas e na verdade muitas pessoas não sabem o que significa “verdade” em ciência, onde não há verdades absolutas, mas apenas provisórias. Mas a evolução é verdade no mesmo sentido em que é verdadeira a teoria dos átomos, a de que alguns micróbios causam doenças … o título pretendia ter impacto, mas também indicar o que está dentro do livro. Claro que acabou por provocar alguma polémica e muitos sugeriram que poderia ser antes Porque a Evolução Aparenta ser Verdade… mas no sentido científico, o que significa verdade é “a verdade tanto quanto podemos dizer que o é” e só quem não seja racional duvidará.
APG- Sobre o seu trabalho com Drosophila de S. Tomé, há tantas moscas da fruta por esse mundo fora, porquê escolher as de S. Tomé? São especiais?
JC- Sim, são muito especiais porque pertencem a um Grupo de Drosophila que estão genericamente muito bem caracterizadas … a mosca da fruta que vê à volta da fruta que tem na cesta são Drosophila melanogaster – provavelmente o organismo cuja genética é a mais estudada no mundo é aliás assim que os geneticistas começam, a estudar essa espécie, e sabe-se mais sobre a genética dessa espécie do que de qualquer outra, mesmo dos humanos. Trata-se na verdade de um grupo de nove espécies intimamente relacionadas entre si, até 2000 eram apenas oito e faziam-se muitos estudos genéticos com elas, porque podem cruzar-se umas com as outras e geram descendência, são os chamados híbridos; em 2000 o meu colega Daniel Lachaise, em Paris, descobriu uma nova espécie na ilha de S. Tomé, a Drosophila Santomea que vive muito perto de uma outra espécie relacionada, a Drosophila Yakuba, na mesma ilha, e estas duas espécies são o parente mais próximo uma da outra. Essas moscas podem ser cruzadas e geram descendência, por isso pode fazer-se uma análise genética de todas as coisas que tornam estas espécies diferentes uma da outra. Podem estudar-se os genomas das espécies e ver em que medida são diferentes. Elas são muito jovens, e por jovens quero dizer que têm 400 mil anos, o que é jovem, em termos evolutivos. Elas não gostam de se cruzar, mas vivem na mesma zona, o que é muito raro nestas espécies muito próximas. Portanto podemos estudar os fatores ecológicos que as mantêm separadas, podemos cruzá-las no laboratório e procurar os genes envolvidos no processo de especiação porque no fim de contas elas evoluíram a partir de um ancestral comum. Nesta situação sem paralelo podemos combinar genética, ecologia e história natural de forma a compreendermos como estas espécies apareceram. Estas são as duas únicas espécies neste grupo que preenchem todos estes requisitos. Portanto nos últimos 12 anos tenho-as estudado.
APG – E já chegou a conclusões interessantes?
JC – Sim, algumas. Por exemplo já descobrimos que há pelo menos 15 barreiras diferentes que mantêm estas espécies separadas, embora vivam na mesma ilha. E há diferenças ecológicas, os híbridos apresentam um certo grau de esterilidade, as duas espécies não gostam de acasalar uma com a outra, há várias coisas. Quando cruzamos uma espécie com a outra as fêmeas têm tendência para morrer porque o esperma do macho da outra espécie é tóxico para elas. Todos estes fatores contribuem para que elas se mantenham distintas e conseguimos saber quantos genes são responsáveis por cada uma destas barreiras e conseguimos mesmo identificar alguns desses genes, agora que já temos a sequência genética completa para as duas espécies.
E também estamos a aprender bastante sobre a ecologia destas moscas, onde vivem, como se reproduzem, o que comem, é muito difícil na floresta tropical, não podemos andar por ali a procura-las, a forma de as apanhar é com um isco feito com banana podre, que é irresistível para elas, e então podemos vê-las e de certa maneira fazer experiências ecológicas com elas e por isso também já conhecemos um pouco da sua ecologia.
E há também uma zona da ilha em que as duas espécies estão presentes, por isso podem acasalar, chamamos-lhe a zona híbrida, e aí podemos estudar qual o processo evolutivo que está a decorrer, há formas de evolução que apenas ocorrem quando as duas espécies vivem na mesma área e podemos ver se essas coisas acontecem.
APG – Estas Drosophila estão no seu livro?
JC – Sim, uso a Drosophila sempre que possível como um exemplo, sabemos bastante por exemplo acerca do processo de formação de novas espécies na mosca da fruta mas muitas das evidências que comprovam a Evolução são da embriologia do registo fóssil, por isso as Drosophila não estão demasiado presentes, mas falo de facto daquelas em que tenho trabalhado, neste meu livro que é agora lançado em Portugal.
APG No seu livro encontramos exemplos recentes de investigação em Evolução?
JC – Sim, bastante, tentei fazê-lo muito atual, tanto quanto possível. Por exemplo, a evidência fóssil: Darwin não tinha registos fósseis para mostrar ancestrais comuns ou sequer a Evolução! Quer dizer ele sabia que as coisas no passado tinham sido diferentes mas não tinha registo de como as coisas foram mudando ao longo do tempo. Há o registo fóssil, com muitas coisas novas, o caso da evolução das baleias a partir de animais terrestres, por exemplo, só se descobriu há 20 ou 30 anos, a evolução das aves a partir dos dinossauros, na verdade só agora se está a perceber, conforme se vão encontrando estes dinossauros com penas, isto nos últimos 10 ou 15 anos, e a evidência molecular por exemplo, nos humanos, que têm no genoma partes não funcionais, que no passado foram funcionais. Tínhamos genes por exemplo para fazer proteína para a gema do ovo, que os répteis e as aves usam mas nós não usamos. Temos os mesmos genes mas não os usamos. Mas isso só foi descoberto depois de sabermos como sequenciar o ADN. E há provas de que evoluímos a partir de um réptil! E tudo isto é novo, de facto, o que incluí no livro são descobertas com menos de 20 ou 30 anos.