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Apenas Grécia nunca houve como
essa inventada nos compêndios pela nostalgia
de uma harmonia branca. Nem a Grécia
deixou de ser - como nós não - essa barbárie cínica,
essa violência racional e argua, uma áspera doçura
do mar e da montanha, das pedras e das nuvens,
e das caiadas casas com harpias negras
que sob o azul do céu persistem dentro em nós,
tão sórdidas, tão puras - as casas e as harpias
e a paisagem idem - como agrestes ilhas
sugando secas todo o vento em volta. (1978:87)
Deste modo, o que surpreende e cativa o autor, neste filme, é a autenticidade, o pulsar da vida com todas as suas facetas negativas e a brutalidade que lhe é inerente, pois: "(...)- há nisto, /e na rudeza com que a terra é terra,/e o mar é mar, e a praia praia, o tom/ exacto de uma música divina" (1978:88).
Assim, a única divindade possível reside precisamente na humanidade - esta é uma das premissas senianas, para quem apenas o humano se encontra imbuído de um teor divino. E, sem dúvida, esta é uma característica que habita este filme, anunciador do poder da amizade, da solidariedade, da força da esperança e de uma certa dose de loucura associada à liberdade. Basta recordarmos a cena em que Zorba diz a Basil que ele tem tudo, mas que lhe falta a loucura e que sem ela, "nenhum homem vai ousar soltar-se e ser livre" (Cacoyannis, Michael 1964).
Por conseguinte, a grande lição que a Grécia nos dá, através deste filme, segundo Jorge de Sena, é apenas esta:" (...) o viver com fúria, este /gastar da vida, /este saber que a vida é coisa que se ensina, /mas não se aprende. /Apenas/pode ser dançada". (1978: 86).
É com esta notória alusão ao final do filme com a dança de Zorba, convertida num dos arquétipos do cinema mundial, que o poema encerra.
Em suma, podemos concluir que Jorge de Sena sempre considerou o cinema como uma arte essencial na representação e descoberta da História, do Mundo, da vida, do Homem, pois como referiu Edgar Morin "O cinema é, por essência, tão indeterminado e aberto como o próprio homem" (1980:193).
Entrecruzando o universo visual e sonoro com o literário, estes poemas de inspiração cinematográfica, sintetizam as convicções artísticas, poéticas e pessoais deste prodigioso autor. Então, se no Potemkin o universo visual do cinema convoca o textual para condenar as injustiças, as atrocidades, a opressão que vítima tantos seres humanos, lançando um grito de revolta, de defesa da liberdade, neste último, encontramos a apologia da amizade, da autenticidade, da liberdade, do humano em contraposição ao divino. Isto porque é necessário desfazer os estereótipos, viver de forma verdadeira, intensa e autêntica, já que a vida apenas "pode ser dançada".
Bibliografia:
GAGO, Dora Nunes - "Entre o Universo visual e o textual: imagens do cinema na obra de Jorge de Sena (comunicação apresentada na Conferência Internacional de Cineme de Avanca (Julho de 2012), publicada no volume de Actas e no site "Ler Jorge de Sena": http://www.letras.ufrj.br/lerjorgedesena/port/ressonancias/estudos/texto.php?id=388
LISBOA, Eugénio (Org.)(1984). Estudos sobre Jorge de Sena. 1.ª ed. Lisboa: Edições Imprensa Nacional-Casa da Moeda.
LOTMAN, Yuri (1978). Estética e Semiótica do cinema (trad, da versão francesa de Alberto Carneiro), Lisboa, Imprensa universitária, Ed. Estampa, Lisboa.
METZ, Christian (1968). Ensaios sobre a Significação no cinema, Paris, ed. Klincksieck.
MORIN, Edgar (1980). O cinema ou o homem imaginário, 2ª ed.(trad. António Pedro Vasconcelos, Lisboa, Moraes Editores.
NOBRE, Roberto (1939). Horizontes do Cinema, Lisboa, Guimarães Editores.
SALLES, Luciana dos Santos - Poesia e o Diabo a Quatro: Jorge de Sena e a escrita do diálogo, Rio de Janeiro, UUFRJ, 2009, dissertação de doutorado publicada em http://www.letras.ufrj.br/posverna/doutorado/SallesLS.pdf, acedida a 15 de Maio de 2011
SANTOS, Emmanoel - "Jorge de Sena: textos sobre cinema", SANTOS, Gilda, org., Jorge de Sena em rotas entrecruzadas, Lisboa, Cosmos, 1999, 69-76.
SENA, Jorge (1978). Poesia III, Lisboa, Círculo de Poesia, Moraes Editores.
SENA, Jorge (1985) Post Scriptum II (recolha, transcrição, nota de abertura de Mécia de Sena), co-edição Moraes editores, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda.
SENA, Jorge. (1988). Sobre cinema. Lisboa, Ed. Cinemateca Portuguesa.
Dora Nunes Gago é professora de Literatura na Universidade de Macau (China), doutorada em Línguas e Literaturas Românicas Comparadas. Foi leitora do Instituto Camões em Montevideu (Uruguai). Publicou: Planície de Memória (poesia, 1997); Sete Histórias de Gatos (em co-autoria com Arlinda Mártires), 1ªed. 2004, 2ª ed. 2005; A Sul da escrita (Prémio Nacional de Conto Manuel da Fonseca, 2007); Imagens do estrangeiro no Diário de Miguel Torga, Fundação Calouste Gulbenkian/FCT, 2008. Além disso, tem poemas, contos e ensaios em diversos jornais, revistas e antologias.
Este blogue é sobre a perspectiva da distância, o olhar de quem vive os Açores radicado na América do Norte, na Europa, no Brasil, ou em qualquer outra região. É escrito por personalidades de referência das nossas comunidades com ligações intensas ao arquipélago dos Açores.
Irene Maria F. Blayer was born in Velas, São Jorge, Azores, and lives in Niagara-on-the-Lake, Ontario, Canada. She holds a Ph.D. in Linguistics (1992) and is a Full Professor (Doutorada em linguística, é Professora Catedrática) at Brock University. Neste espaço procura-se a colaboração de colegas e amigos cujos textos, depoimentos, e outros -em Inglês, Português, Francês, ou Castelhano- sejam vozes que testemunhem a nossa 'narrativa' diaspórica, ou se remetam a uma pluralidade de encontros onde se enquadra um universo que contempla uma íntima proximidade e cumplicidade com o nosso imaginário cultural e identitário.
Lélia Pereira da Silva Nunes - Brasil
Nasceu em Tubarão, vive em Florianópolis, Ilha de Santa Catarina. Socióloga, Professora da Universidade Federal de Santa Catarina, aposentada, investigadora do Patrimônio Cultural Imaterial (experts/UNESCO,Mercosul), escritora e, sobretudo, uma apaixonada pelos Açores. Este é um espaço, sem limites nem fronteiras, aberto ao diálogo plural sobre as nossas comunidades. Um espaço que, aproximando geografias, reflete mundivivências a partir do "olhar distante e olhar de casa," alicerçado no vínculo afetivo e intelectual com os Açores. Vozes açorianas, onde quer que vivam, espalhadas pelo mundo e, aqui reunidas num grande abraço fraterno, se fazem ouvir. Azorean descent.-- Born in Tubarão(SC) and lives in Florianopolis, Santa Catarina Island,Brasil. She holds postgraduate degreees in Public Administration, and is an Associate Professor at Federal University of Santa Catarina.
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