Sexta, 28 de Novembro de 2014
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Comunidades

Irene Maria F. Blayer, Lélia Pereira Nunes

2012-05-03 17:10:08

O cinema que desagua em poesia na obra de Jorge de Sena (2/2) - Dora Nunes Gago

(...cont.)

A relação espaço/tempo, abordada de forma ímpar no filme, é aqui transposta através da utilização de expressões configuradoras dessa relação: "depois", "há muito tempo", evoluindo depois para uma dimensão atemporal, através da alusão à "eternidade".
A seguir, na segunda estrofe, é notória uma projecção universal de denúncia da injustiça e da violência, tão presentes no filme: "No cais do mundo, olhando o horizonte,/ as multidões dispersas/ esperam ver surgir as chaminés antigas,/aquele bojo de aço e ferro velho"(1978:55). A imagem metafórica do "cais do mundo" espelha bem a esperança de que um dia, todos os "marinheiros" do mundo, oprimidos, injustiçados, possam esperar por um navio salvador, ou permanecendo em terra firme, se recusem a engolir a carne podre, imposta ao longo dos tempos.
Então, numa estrofe impregnada de dramatismo, visualismo e acção, transmitidos através dos verbos conjugados no presente, o poeta constrói imagens fragmentárias, projectadas e actualizadas no seu tempo, no tempo das ditaduras e da falta de liberdade: "Uns morrem, outros vendem-se, /Outros conformam-se e esquecem e outros são/ assassinados, torturados, presos. /Às vezes a polícia passa entre as multidões, / e leva alguns nos carros celulares." (1978:55). No entanto, mesmo perante este cenário de medo e opressão há sempre alguém que resiste e alimenta o sonho da liberdade: "Mas há sempre outra gente olhando os longes, / a ver se o fumo sobre na distância e vem/ trazendo até ao cais o couraçado." (1978:56).
No entanto, o couraçado tarda e o tempo ganha a densidade do desespero, assumindo a mesma tensão do filme. E neste cenário de ansiedade, tensão e desespero, apenas a luz da esperança vai ganhando maior intensidade, culminando na penúltima estrofe com os verbos no futuro do indicativo: "Há-de vir e virá. Tenho a certeza/ como de nada mais. O couraçado / virá e passará/ entre a esquadra que o aclama." (1978:56).
No final, fundem-se o passado e o presente, para terminar com uma afirmação que enfatiza a última esperança: "Partiu há muito tempo. Era em Odessa,/ no Mar Negro. Deu a volta ao mundo./ O mundo é vasto e vário e dividido, e os mares/ são largos./ Fechem os olhos,/ cerrem fileiras,/ o couraçado vem." (1978:56).
De novo, então, a evocação do espaço concreto (Odessa), e no final o apelo "Fechem os olhos / cerrem fileiras") (1978:56). Num poema dominado pelo universo visual, não deixa de ser curioso e quase paradoxal o apelo feito pelo poeta, através da utilização do imperativo. Contudo, o facto de apelar a que "fechem os olhos" será uma forma de evasão da realidade circundante, de modo a mergulhar de forma mais intensa no reino da esperança, para acreditar mais veementemente que "o couraçado vem" (1978:56).
Assim, este poema construído a partir de um filme emblemático da defesa da liberdade, no qual a violência é concebida como aberração e o couraçado significa sobretudo um processo qualitativo de transformação, um hino à defesa da liberdade artística e humana, revela precisamente a faceta profundamente humanista de Jorge de Sena. É, no fundo, a sua concepção da vida, da violência, a condenação da tirania, sempre iluminada pela centelha da esperança, que este filme lhe parece ter despertado, consubstanciando-se em poesia. Neste caso, podemos, inclusive, aludir a uma citação feita por Roberto Nobre de Schwob (1920): "São as raízes do ser, (...) é essa fermentação subterrânea, fora do qual todos os nossos pensamentos desabrocham no ponto de tangência do nosso ser mais secreto e o mais ignorado de nós próprios, com aquilo que nós nos orgulhamos de ser, que o cinema nos faz enfim atingir." (Nobre, 1939:200). Terá sido nitidamente este o efeito provocado por este filme no poeta.
Outro poema apelidado de cinematográfico, tem como "mote" um filme, cujo cenário também é banhado pelo "Mar Negro", intitula-se "À memória de Kazantzakis, e a quantos fizeram o filme Zorba the greek" e integra a Peregrinatio ad loca infecta, 1969.
Com efeito, Kazantzakis, autor muito admirado por Jorge Sena, é considerado um dos maiores escritores gregos do séc. XX, tendo vivido também as amarguras do exílio, visto ter sido considerado um autor proibido.
Então, o poema inicia-se com uma frase: Deixa os gregos em paz, recomendou/uma vez um poeta a outro que falava/de gregos". (1978: 86).
No fundo, Sena partilha com o escritor grego a imagem de uma Grécia real, veiculada pelo filme, que se afasta de um estereótipo concebido pela memória ocidental. O que ele admira é o espaço habitado por homens reais, de carne e osso, que destoa de uma Grécia idílica, utópica, reino de deuses e de alvas estátuas. É essa realidade que habita o filme que, muito resumidamente, narra a história de Basil, um escritor greco-britânico, proveniente da Inglaterra, que, impulsionado por uma crise de criatividade, decide ir para Creta, terra natal do seu pai. Enquanto aguarda para embarcar no navio que o conduzirá à ilha, conhece Zorba, um grego simples e entusiasmado, com vários alcunhas, segundo ele próprio refere - sendo um deles "Epidemia", graças ao seu "dom" para espalhar o caos. Zorba simpatiza com Basil e torna-se seu companheiro de viagem, disponibilizando-se para trabalhar com ele na mina herdada do pai.
Toda a acção é atravessada pelo constante conflito entre os costumes dos aldeões locais, por vezes marcados por alguma agressividade, e os padrões culturais e comportamentais do estrangeiro recém-chegado. É o tom realista, humano, genuíno com que se configura essa Grécia real, que como já verificámos, seduz Jorge de Sena, por isso, afirma:

Apenas Grécia nunca houve como
essa inventada nos compêndios pela nostalgia
de uma harmonia branca. Nem a Grécia
deixou de ser - como nós não - essa barbárie cínica,
essa violência racional e argua, uma áspera doçura
do mar e da montanha, das pedras e das nuvens,
e das caiadas casas com harpias negras
que sob o azul do céu persistem dentro em nós,
tão sórdidas, tão puras - as casas e as harpias
e a paisagem idem - como agrestes ilhas
sugando secas todo o vento em volta.  (1978:87)

Deste modo, o que surpreende e cativa o autor, neste filme, é a autenticidade, o pulsar da vida com todas as suas facetas negativas e a brutalidade que lhe é inerente, pois: "(...)- há nisto, /e na rudeza com que a terra é terra,/e o mar é mar, e a praia praia, o tom/ exacto de uma música divina" (1978:88).
Assim, a única divindade possível reside precisamente na humanidade - esta é uma das premissas senianas, para quem apenas o humano se encontra imbuído de um teor divino. E, sem dúvida, esta é uma característica que habita este filme, anunciador do poder da amizade, da solidariedade, da força da esperança e de uma certa dose de loucura associada à liberdade. Basta recordarmos a cena em que Zorba diz a Basil que ele tem tudo, mas que lhe falta a loucura e que sem ela, "nenhum homem vai ousar soltar-se e ser livre" (Cacoyannis, Michael 1964).
Por conseguinte, a grande lição que a Grécia nos dá, através deste filme, segundo Jorge de Sena, é apenas esta:" (...) o viver com fúria, este /gastar da vida, /este saber que a vida é coisa que se ensina, /mas não se aprende. /Apenas/pode ser dançada". (1978: 86).
É com esta notória alusão ao final do filme com a dança de Zorba, convertida num dos arquétipos do cinema mundial, que o poema encerra.
Em suma, podemos concluir que Jorge de Sena sempre considerou o cinema como uma arte essencial na representação e descoberta da História, do Mundo, da vida, do Homem, pois como referiu Edgar Morin "O cinema é, por essência, tão indeterminado e aberto como o próprio homem" (1980:193).
Entrecruzando o universo visual e sonoro com o literário, estes poemas de inspiração cinematográfica, sintetizam as convicções artísticas, poéticas e pessoais deste prodigioso autor. Então, se no Potemkin o universo visual do cinema convoca o textual para condenar as injustiças, as atrocidades, a opressão que vítima tantos seres humanos, lançando um grito de revolta, de defesa da liberdade, neste último, encontramos a apologia da amizade, da autenticidade, da liberdade, do humano em contraposição ao divino. Isto porque é necessário desfazer os estereótipos, viver de forma verdadeira, intensa e autêntica, já que a vida apenas "pode ser dançada".

 

Bibliografia:

GAGO, Dora Nunes - "Entre o Universo visual e o textual: imagens do cinema na obra de Jorge de Sena (comunicação apresentada na Conferência Internacional de Cineme de Avanca (Julho de 2012), publicada no volume de Actas e no site "Ler Jorge de Sena": http://www.letras.ufrj.br/lerjorgedesena/port/ressonancias/estudos/texto.php?id=388

LISBOA, Eugénio (Org.)(1984). Estudos sobre Jorge de Sena. 1.ª ed. Lisboa: Edições Imprensa Nacional-Casa da Moeda.
LOTMAN, Yuri (1978). Estética e Semiótica do cinema (trad, da versão francesa de Alberto Carneiro), Lisboa, Imprensa universitária, Ed. Estampa, Lisboa.
METZ, Christian (1968). Ensaios sobre a Significação no cinema, Paris, ed. Klincksieck.
MORIN, Edgar (1980). O cinema ou o homem imaginário, 2ª ed.(trad. António Pedro Vasconcelos, Lisboa, Moraes Editores.
NOBRE, Roberto (1939). Horizontes do Cinema, Lisboa, Guimarães Editores.
SALLES, Luciana dos Santos -  Poesia e o Diabo a Quatro: Jorge de Sena e a escrita do diálogo, Rio de Janeiro, UUFRJ, 2009, dissertação de doutorado publicada em http://www.letras.ufrj.br/posverna/doutorado/SallesLS.pdf, acedida a 15 de Maio de 2011
SANTOS, Emmanoel - "Jorge de Sena: textos sobre cinema", SANTOS, Gilda, org., Jorge de Sena em rotas entrecruzadas, Lisboa, Cosmos, 1999, 69-76.
SENA, Jorge (1978). Poesia III, Lisboa, Círculo de Poesia, Moraes Editores.
SENA, Jorge (1985) Post Scriptum II (recolha, transcrição, nota de abertura de Mécia de Sena), co-edição Moraes editores, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda.
SENA, Jorge. (1988). Sobre cinema. Lisboa, Ed. Cinemateca Portuguesa.


Dora Nunes Gago
é professora de Literatura na Universidade de Macau (China), doutorada em Línguas e Literaturas Românicas Comparadas. Foi leitora do Instituto Camões em Montevideu (Uruguai). Publicou: Planície de Memória (poesia, 1997); Sete Histórias de Gatos (em co-autoria com Arlinda Mártires), 1ªed. 2004, 2ª ed. 2005; A Sul da escrita (Prémio Nacional de Conto Manuel da Fonseca, 2007); Imagens do estrangeiro no Diário de Miguel Torga, Fundação Calouste Gulbenkian/FCT, 2008. Além disso, tem poemas, contos e ensaios em diversos jornais, revistas e antologias.

por: Irene Maria F. Blayer - Lelia Pereira Nunes

Este blogue é  sobre a perspectiva da distância, o olhar de quem vive os Açores radicado na América do Norte, na Europa, no Brasil, ou em qualquer outra região. É escrito por personalidades de referência das nossas comunidades com ligações intensas ao arquipélago dos Açores (25.02.2007).

Irene Maria F. Blayer - Nasceu em São Jorge, Azores, e vive no Canadá.  
She holds a Ph.D. in Romance Linguistics and is a Full Professor at Brock University, Canada -Doutorada em linguística, é Professora Catedrática na Univ. Brock. Neste espaço procura-se a colaboração de colegas e amigos cujos textos, depoimentos, e outros -em Inglês, Português, Francês, ou Castelhano- sejam vozes que testemunhem a  nossa 'narrativa' diaspórica, ou se remetam a uma pluralidade de encontros onde se enquadra um universo  que  contempla uma íntima proximidade e cumplicidade com o nosso imaginário cultural e identitário.

Lélia Pereira da Silva Nunes - Brasil
Nasceu em Tubarão, vive em Florianópolis, Ilha de Santa Catarina. Socióloga, Professora da Universidade Federal de Santa Catarina, aposentada. Titular do Conselho Estadual de Cultura atuando nas Câmaras de Letras e Patrimônio Cultural.  Pertence a Academia Catarinense de Letras, Cadeira 26. Iinvestigadora do Patrimônio Cultural Imaterial (experts/UNESCO,Mercosul), escritora e, sobretudo, uma apaixonada pelos Açores. Este é um espaço, sem limites nem fronteiras, aberto ao diálogo plural sobre as nossas comunidades. Um espaço que, aproximando geografias, reflete mundivivências a partir do "olhar distante e olhar de casa," alicerçado no vínculo afetivo e intelectual com os Açores. Vozes açorianas, onde quer que vivam, espalhadas pelo mundo e, aqui reunidas num grande abraço fraterno, se fazem ouvir. Azorean descent.-- Born in Tubarão(SC) and  lives in Florianopolis, Santa Catarina Island,Brasil. She holds postgraduate degreees  in Public Administration, and is an Associate Professor at Federal University of Santa Catarina.

 

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