Quinta, 24 de Abril de 2014
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Comunidades

Irene Maria F. Blayer, Lélia Pereira Nunes

2012-04-26 04:14:31

O rochedo que chorou ** Luiz Antonio de Assis Brasil


foto Publiçor,2011.

O rochedo que chorou

Não é comum que um jovem diga: “A F[r]onte da Juventude: Apagas o mundo dos meus olhos / Sem remorso, limpas-me a juventude da fronte / E vês o velho que te espera desde sempre / Sujo e imundo da vida que, sem piedade / Me fincou as sementes / Nas palmas rijas e lavradas das mãos”.
Pois esse jovem de 28 anos é João Pedro Porto, poeta português, açoriano da ilha de São Miguel, mestre em Psicologia Clínica. Seu livro de estreia, de onde saiu o poema acima, chama-se O Rochedo que Chorou, publicado pela Publiçor e que [ainda] não circula no Brasil. [Aliás, bem poderíamos rever o princípio de que não se escreve resenha se o livro não está disponível no mercado; hoje em dia, com o sucesso dos blogs, das páginas no Facebook, dos downloads livres, entre outras circunstâncias, temos de pensar que a literatura está em toda parte, sem territorialidades].
Trata-se de um livro híbrido, no melhor sentido da palavra, e condiz com uma vertente importante da literatura contemporânea. Esse hibridismo é representado pela multiplicidade de gêneros: ali há poemas, reflexões [“Sou Antiquado. Acho que é a minha característica mais antiga porque, quando nasci, chorei. E isso hoje em dia está a tornar-se coisa antiquada”], contos tradicionais, minicontos e outros escritos indefiníveis, mas dotados da mesma qualidade interrogativa ante o mundo. Impressiona, também, a amplidão do universo de conhecimentos, que transita pela filosofia “existencial”, pela psicologia, pela literatura, pela mitologia [como em “A Fuga de Ítaca] e pela História. O autor move-se com facilidade entre épocas e estilos, mas sem agredir o leitor com erudições inúteis e ostentatórias; ao contrário: é uma erudição a serviço de uma leveza conceitual, que nos captura pela emoção.
Diz-se que todo escritor jovem fala de si mesmo; pode ser, mas a realidade desta cultura pós-moderna e ególatra é que também os anciãos falem apenas de si mesmos. Assim, não é pecado algum que João Pedro Porto use um “eu” persistente como o badalo de um sino. A diferença está que este “eu” só existe em ação relacional, isto é, em diálogo com o outro. Nunca é uma fala estéril ou intransitiva. Poder-se-ia dizer que é uma fala construtiva, mas sem qualquer conotação piegas ou pedagógica. Eis um escritor completo, que tem muito a ensinar à sua geração e à geração futura, inclusivamente com textos que, aproximando-se da lira romântica, subvertem-na, como “Volver: Voltarás / do fundo dos rochedos / lavrando a minha alma / De saudade e agonia // Hoje és sonho e pensamento / Ontem mar na minha face / Rebentarás forte e fria / Amanhã, / No calor do meu peito”. O jogo de oposições sonoras, as quase-rimas que mais sugerem do que dizem, fazem deste poema uma espécie de summa do eu-poético do autor, que gosta de surpreender seu leitor com esses contrastes, erigindo-os à instância de um programa estético.
João Pedro Porto. Gravem esse nome. Muito ouvirão falar dele. E falar como um escritor que vai à raiz do humano, capaz de construir uma obra duradoura, acima das circunstâncias do [seu] tempo. E essa é a marca da verdadeira obra de arte.

Luiz Antonio de Assis Brasil  (*)
 

 (*)  Natural do Rio Grande do Sul, Luiz Antônio de Assis Brasil é um dos grandes nomes da literatura brasileira e emérito  Professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.
Atualmente, o escritor é o Secretário de Estado da Cultura do Rio Grande do Sul.
 


por: Lelia Pereira Nunes -Irene Maria F. blayer

Este blogue é  sobre a perspectiva da distância, o olhar de quem vive os Açores radicado na América do Norte, na Europa, no Brasil, ou em qualquer outra região. É escrito por personalidades de referência das nossas comunidades com ligações intensas ao arquipélago dos Açores (25.02.2007).

Irene Maria F. Blayer - Nasceu em São Jorge, Azores, e vive no Canadá.  
She holds a Ph.D. in Romance Linguistics and is a Full Professor at Brock University, Canada -Doutorada em linguística, é Professora Catedrática na Univ. Brock. Neste espaço procura-se a colaboração de colegas e amigos cujos textos, depoimentos, e outros -em Inglês, Português, Francês, ou Castelhano- sejam vozes que testemunhem a  nossa 'narrativa' diaspórica, ou se remetam a uma pluralidade de encontros onde se enquadra um universo  que  contempla uma íntima proximidade e cumplicidade com o nosso imaginário cultural e identitário.

Lélia Pereira da Silva Nunes - Brasil
Nasceu em Tubarão, vive em Florianópolis, Ilha de Santa Catarina. Socióloga, Professora da Universidade Federal de Santa Catarina, aposentada, investigadora do Patrimônio Cultural Imaterial (experts/UNESCO,Mercosul), escritora e, sobretudo, uma apaixonada pelos Açores. Este é um espaço, sem limites nem fronteiras, aberto ao diálogo plural sobre as nossas comunidades. Um espaço que, aproximando geografias, reflete mundivivências a partir do "olhar distante e olhar de casa," alicerçado no vínculo afetivo e intelectual com os Açores. Vozes açorianas, onde quer que vivam, espalhadas pelo mundo e, aqui reunidas num grande abraço fraterno, se fazem ouvir. Azorean descent.-- Born in Tubarão(SC) and  lives in Florianopolis, Santa Catarina Island,Brasil. She holds postgraduate degreees  in Public Administration, and is an Associate Professor at Federal University of Santa Catarina.

 

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