Quinta, 28 de Agosto de 2014
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Comunidades

Irene Maria F. Blayer, Lélia Pereira Nunes

2013-03-06 14:03:34

Penteando a Memória 45 - Carlos Enes

PENTEANDO A MEMÓRIA 45
CARLOS ENES

TOURADA À CORDA

A tourada à corda é, sem sombra de dúvida, o divertimento mais popular da ilha Terceira. Pelos relatos que se conhecem, agrada a todas as classes sociais, a todas as idades e aos dois sexos.

A sua origem continua, todavia, por determinar. Tudo indica que os povoadores tenham trazido consigo o costume de correr vacas à corda, como acontecia no século XVI em várias zonas do Minho, em Castelo Branco e na Estremadura, caso de Arruda dos Vinhos. As semelhanças podem não ser muitas, mas poderão ter servido para a evolução que se registou na Terceira. Outra hipótese é a da origem espanhola, uma vez que se realizavam touradas semelhantes, conhecidas pelo nome de galfumbo e el aguardente, mas esta tese perde consistência, perante os testemunhos de Gaspar Frutuoso e as disposições do Bispado.

Independentemente das origens, o facto é que no século XIX a imprensa faz vastas referências a este divertimento. Na altura, já se realizavam entre Abril e Outubro, num calendário semelhante ao do presente. No ano de 1886 realizaram-se 42 corridas; em 1922, 120; em 1937 o número desceu para 93 e, em 1964, já eram 122, número este que tem vindo a subir nos últimos anos, onde se ultrapassam as 250.



    (Início sec XX)

A popularidade e a consideração das touradas à corda eram tão elevadas que qualquer visitante ilustre era presenteado com uma corrida de fama. Estão bem na memória dos terceirenses as fotografias tiradas na tourada em São João de Deus a D. Carlos e a D. Amélia, quando visitaram a ilha em 1901. Posteriormente, presidentes da República e muitas outras individualidades foram também obsequiados com uma tourada.

Apesar de tudo, a tourada foi alvo de várias críticas. Alguns sectores consideravam uma barbaridade amarrar o bicho à corda e espicaçá-lo com aguilhões. Esta era uma prática frequente ainda no início do século XX, mas que foi caindo em desuso. Como se pode constatar numa das fotos, praticamente todos os homens usavam bordão. Por outro lado, apareciam na imprensa várias opiniões que achavam exagerado o número de touradas, o que prejudicava o trabalho do dia-a-dia. Por isso, chegou a ser publicado, nos anos 20, um alvará que procurava concentrá-las nos domingos e feriados, mas como essa determinação prejudicava o fundo de beneficência distrital, que auferia receitas a partir das licenças concedidas, acabou por não ser respeitado. Quanto aos prejuízos económicos, na realidade ainda se perdem muitas horas de trabalho para cada um estar presente na tourada, mas há quem defenda que as contas bem apuradas talvez se convertam em ganho, dado que a economia da ilha vive, em boa medida, de todo o comércio que se gera em torno desta festa, nas conhecidas tascas e no consumo familiar.

A realização de uma tourada exige um conjunto de trabalhos prévios e alguns rituais que sofreram ligeiras alterações. Nos início dos anos ´60 fui mordomo e ainda me lembro do momento mágico de reunir com o criador, escolher o gado que pretendíamos e ajustar o preço.

Na véspera da tourada, os touros escolhidos são apartados e preparados para a viagem. Até aos anos ´50, sensivelmente, os touros partiam e regressavam ao mato a pé, acompanhados por vacas, pastores e cães que os enquadravam, para evitar a fuga.

No local de destino eram conduzidos para um touril. O touril compunha-se de um espaço amplo, onde estavam todos juntos, bois e vacas, donde saíam um a um para serem corridos. Eram então separados para um compartimento mais pequeno, onde eram embolados e laçados pelo pescoço. A segurança, nestes casos, era bem mais reduzida, pois era frequente uma fuga do touril.

Nos anos ´60, já eram transportados em camionetas, metidos numas gaiolas individuais. As gaiolas são colocadas num local do arraial e dali saem os animais para a corrida. Na parte superior da gaiola há uma portinhola que levanta e permite que o touro seja laçado, pois já foi embolado previamente num enjaulador, no chamado tentadero. Também a partir doa anos ´60, com a maior facilidade de transportes, os habitantes da freguesia onde se realiza a tourada fazem uma excursão ao mato, pela manhã. Assistem aos preparativos da selecção do gado, comem e bebem em abundância e divertem-se com uns bezerros que são corridos numa pequena praça. Este hábito que se enraizou acabou por se transformar numa outra festa em que toda a gente, da terra e de fora, acaba por participar.

A corda com cerca de 50 metros é segurada por dois grupos de pastores: uns ao meio e outros na extremidade. Em épocas mais recuadas estes pastores usavam calças brancas, boné e uma viseira e por isso eram conhecidos como mascarados da corda. São os pastores que controlam o animal, não o deixando ultrapassar os limites do arraial e manuseando a corda para que o animal faça algum "bonito". O divertimento consiste em capear e provocar a arremetida do animal.

Mas como a sorte nem sempre protege os audazes, as marradas são uma constante, podendo nalguns casos ser causa de morte. Numa tourada são corridos quatro touros, mas no século XIX, o número era muito variado, dado que encontrei notícias de sete toiros corridos.


Touradas... divertimento popular, dia de namoro e de troca de olhares mais atrevidos. Homens no caminho, mulheres nas varandas, muros e janelas. E o homem das favas e do milho torrado percorrendo o arraial de ponta a ponta.  

Como escreveu Vitorino Nemésio: "Uma atmosfera de assuada e de pó envolve tudo, - até que, ao bombão que anuncia a recolha do último toiro, começa o desfile da retirada. A alma da Terceira encontrou mais uma vez no toiro preso o pretexto para a sua expansão ruidosa e pueril".

O toiro, quando saiu,
Com a pancada estancou:
Assim o meu coração,
Quando te viu parou.

Eu fui pastor dos Corvelos,
Rasguei muito camisão;
Mas quem me furou o peito,
Ai! Não foi o toiro, não!

                        V. Nemésio

 

 

 

por: Irene Maria F. Blayer - Lelia Pereira Nunes

Este blogue é  sobre a perspectiva da distância, o olhar de quem vive os Açores radicado na América do Norte, na Europa, no Brasil, ou em qualquer outra região. É escrito por personalidades de referência das nossas comunidades com ligações intensas ao arquipélago dos Açores (25.02.2007).

Irene Maria F. Blayer - Nasceu em São Jorge, Azores, e vive no Canadá.  
She holds a Ph.D. in Romance Linguistics and is a Full Professor at Brock University, Canada -Doutorada em linguística, é Professora Catedrática na Univ. Brock. Neste espaço procura-se a colaboração de colegas e amigos cujos textos, depoimentos, e outros -em Inglês, Português, Francês, ou Castelhano- sejam vozes que testemunhem a  nossa 'narrativa' diaspórica, ou se remetam a uma pluralidade de encontros onde se enquadra um universo  que  contempla uma íntima proximidade e cumplicidade com o nosso imaginário cultural e identitário.

Lélia Pereira da Silva Nunes - Brasil
Nasceu em Tubarão, vive em Florianópolis, Ilha de Santa Catarina. Socióloga, Professora da Universidade Federal de Santa Catarina, aposentada, investigadora do Patrimônio Cultural Imaterial (experts/UNESCO,Mercosul), escritora e, sobretudo, uma apaixonada pelos Açores. Este é um espaço, sem limites nem fronteiras, aberto ao diálogo plural sobre as nossas comunidades. Um espaço que, aproximando geografias, reflete mundivivências a partir do "olhar distante e olhar de casa," alicerçado no vínculo afetivo e intelectual com os Açores. Vozes açorianas, onde quer que vivam, espalhadas pelo mundo e, aqui reunidas num grande abraço fraterno, se fazem ouvir. Azorean descent.-- Born in Tubarão(SC) and  lives in Florianopolis, Santa Catarina Island,Brasil. She holds postgraduate degreees  in Public Administration, and is an Associate Professor at Federal University of Santa Catarina.

 

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