<![CDATA[Comunidades - RTP]]> http://www.rtp.pt pt-pt Thu, 23 May 2013 17:53:39 GMT 5 pedro.landeiro@rtp.pt (Pedro Landeiro) pedro.landeiro@rtp.pt (Pedro Landeiro) http://www.rtp.pt/web/rss/logortp.gif BLOGS RTP.PT http://www.rtp.pt 36 19 <![CDATA[Poema do Dia:Naquele Tempo Éramos Donos Emanuel Jorge Botelho]]>  Nelson Cabral e Consultoria de Urbano Bettencourt, apresentamos o poema
« Naquele tempo Éramos Donos».

Dito: Emanuel Jorge Botelho
Comentários: Sònia Chagas e Urbano Bettencourt






            


NAQUELE TEMPO ÉRAMOS DONOS
 

Naquele tempo éramos donos

das palavras,

não pagávamos tributo ao dicionário.


Naquele tempo fazíamos dos actos

factos,

ignorávamos os agiotas da decência.


Éramos dragões vomitando fogo,

lava,

origem,

trigo e

irreverência.


Éramos libertinos, libertários,

vagabundos

sentados nas sarjetas da

inocência.


Naquele tempo éramos donos

naquele tempo éramos

naquele tempo ...

                       -1978-


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Lélia Pereira Nunes e Irene Maria Blayer Canadá,Brasil,Portugal,Açores Thu, 23 May 2013 10:33:14
<![CDATA[A partida - Dora Nunes Gago ]]>

A partida

                                                                           

     A carrinha afastava-se, seguida por uma onda de poeira. Para trás ficava os retalhos da infância e da adolescência, semeados naquela terra dourada. Pedro já era um homem. Por isso, partia para conquistar o pão lá longe, onde a vida parecia sorrir. Então porquê aquele nó na garganta? Aquela teia no estômago que lhe subia até ao peito e quase o estrangulava? Aquelas lágrimas secas que lhe nasciam e morriam nos olhos? A sua terra natal já ficara para trás. Mas cada vez mais parecia mais viva e presente na memória. As brincadeiras, os amigos, a família, o namorico com a Joana...

    Não, não se podia esquecer que até era um felizardo. Trabalharia, pelo menos um ou dois anos, em Espanha, na construção civil. Ainda não assinara o contrato nem tinha garantias de nada, nem sequer conhecia as condições de trabalho, mas o representante do empreiteiro parecia honesto. E nos tempos que correm quem pode exigir muitas certezas?

     Ele sempre vivera com pouco. Não quisera seguir os estudos e deixara a escola assim que havia terminado o 6° ano, portanto não podia esperar grandes oportunidades. Não é que não gostasse de estudar, mas também tinha de ajudar os pais no campo e às vezes guardar o gado. Depois, o cansaço apoderava-se dele e se pegava num livro as letras esquivavam-se-lhe numa nuvem de sono, como se fossem feitas de fumo ou de vento. Além disso, ninguém o queria para doutor, nem os pais o poderiam manter muito tempo na escola, pois as três irmãs mais novas já eram despesa suficiente.

    Enfim, a terra era mais madrasta do que mãe, tudo dela era arrancado a ferros e apenas bastava para assegurar a subsistência... Por isso, o sonho de ter uma casa e uma família sua tinha de ser conquistado de outra maneira. Assim, quando viu o anúncio no jornal lá no café da terra, nem pensou duas vezes. E o espírito aventureiro que habitava na sua família veio à tona. Bastou lembrar-se que o avô, natural de Juromenha, havia sido contrabandista e falecera precisamente com o certeiro tiro impiedoso dum guarda. O pai também ainda contrabandeara, mas o susto acabara por desencorajá-lo. Mudou de terra e de vida. Por isso, ele até tinha sorte, ia trabalhar legalmente, sem correr risco de vida e ganhar bem - fora a promessa do empreiteiro. Pedro desconhecia ainda a matéria da qual poderiam ser tecidas as promessas, a substância volátil que as habitava convertendo-as tantas vezes em espuma ou vento.

    A planície dormia ainda e o novo dia era, também ele, apenas o eco duma promessa. A viagem parecia interminável, sustentada pela ansiedade e pelo sonho. Já tinha ouvido, às vezes, histórias estranhas de gente que emigrava e era escravizada, maltratada, explorada... mas não, isso não lhe aconteceria, eram coisas que se diziam e o povo inventa tanto! Só aos outros acontecem certas desgraças, aos incautos, aos desprevenidos ou inconscientes.

     Pedro rendeu-se ao cansaço e adormeceu durante muitas horas. Sonhava com o regresso, triunfante e endinheirado, com a construção de uma casa e o casamento com a Joana.

   Ausente da realidade, nem se apercebeu de que havia atravessado a fronteira e chegara à terra de todas as promessas, junto ao barracão degradado que iria partilhar com outros oito homens, durante os próximos meses, entre a ilusão e o pesadelo, o suor, as lágrimas e os sonhos vencidos em cada poente.

 

Dora Nunes Gago



Dora Nunes Gago é professora de Literatura na Universidade de Macau (China), doutorada em Línguas e Literaturas Românicas Comparadas. Foi leitora do Instituto Camões em Montevideu (Uruguai), professora do ensino secundário e investigadora de pós-doutoramento da FCT na Universidade de Aveiro.Publicou: Planície de Memória (poesia, 1997); Sete Histórias de Gatos (em co-autoria com Arlinda Mártires), 1ªed. 2004, 2ª ed. 2005; A Sul da escrita (Prémio Nacional de Conto Manuel da Fonseca, 2007); Imagens do estrangeiro no Diário de Miguel Torga, Fundação Calouste Gulbenkian/FCT, 2008. Além disso, tem poemas, contos, artigos e ensaios em diversos jornais, revistas e antologias.

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Irene Maria F. Blayer - Lelia Pereira Nunes Macau,Canadá,Brasil,Açores Tue, 21 May 2013 07:02:25
<![CDATA["Que bom é ser Açoriano!"]]> No Canadá - onde resido - é feriado nacional, dia de festividades por todo o país; celebra-se o aniversário da Rainha Victória.  Nos Açores, decorrem as celebrações do Dia dos Açores. Símbolo da nossa Autonomia. Neste dia ergue-se e assume-se - no eu açoriano - um espaço de emoção composto de gestos, de palavras, de ritmos, de memórias cuja consciência colectiva se harmoniza numa 'voz insular' de intensa relação com a terra mater. Para os  Açorianos nos Açores e espalhados pela diáspora, 'viver' as manifestações em louvor a este NOSSO dia, é fixar e afirmar o testemunho da nossa 'açorianidade'; é saber reiterar orgulhosamente as palavras do ex-Presidente do Governo dos Açores, Carlos César, neste Dia da Região em 2009 na cidade de Toronto: "Tenho a certeza que nunca há-de faltar uma razão para que não se pense e não se diga: Que bom é ser Açoriano!".Irene Maria F. Blayer e Lélia Pereira Nunes20 de Maio de 2013 ]]> Irene Maria F. Blayer - Lélia Pereira Nunes Canadá,Açores Mon, 20 May 2013 12:18:39 <![CDATA[ FESTA DO DIVINO ESPÍRITO SANTO B.I. DA CULTURA AÇORIANA NO SUL DO BRASIL -- Lélia Pereira Nunes ]]>




Willy Zumblick, Glória ao Divino Espírito Santo,1980
1,25x1,10 m.

- FESTA DO DIVINO ESPÍRITO SANTO -
B.I. DA CULTURA AÇORIANA NO SUL DO BRASIL



Se me fosse dada a tarefa de construir um mapa cultural do Brasil e ali registrar as principais festas religiosas tradicionais que ocorrem na vastidão territorial do País, com absoluta certeza, a Festa do Divino Espírito Santo seria de longe a manifestação de maior incidência cultural em todos os vinte seis Estados da Federação e Distrito Federal, desde o Amapá até o Rio Grande do Sul ou de Sergipe à Amazônia. Se esta representação cartográfica fosse sinalizada, simbólicamente, com uma emblemática bandeirinha vermelha (a do Divino) em todos os municípios brasileiros que celebram o Espírito Santo, de um total de 5.565, o resultado quantitativo seria surpreendente. Um Brasil inteiro vestido de Espírito Santo tal é a forte presença do culto e sua celebração por terras de Vera Cruz.
Popularizado como “Culto ao Divino” tem especial visibilidade no Sul do Brasil, sobretudo em Santa Catarina, alimentada por uma tradição de 265 anos que, mesmo modificada na passagem do tempo, se faz sentir em plenitude por todo o litoral e,também, na serra catarinense onde foi levada por tropeiros paulistas, gaúchos e insulares açorianos.
A Festa do Espírito Santo constitui a maior expressão de transnacionalidade cultural a partir da emigração açoriana do Séc. XVIII para o Sul do Brasil. Paradigma de excelência de uma situação imigratória cujo estudo, apesar de ter um recorte individual, é um ótimo exemplo na abordagem da complexidade e da diversidade da cultura brasileira e, ainda, na compreenção do fenômeno social da mobilidade humana.
As mais antigas referências sobre a existência da Irmandade e a celebração da festa em Florianópolis datam de 1773, ano da instituição da Irmandade do Divino Espírito Santo da Paróquia Nossa Senhora do Desterro e de 1776, ano da realização da primeira Festa do Espírito Santo. Somente em 1806 aconteceu a primeira Festa com Coroação, sendo coroado o açoriano Capitão Manoel Francisco da Costa.
Passaram 237 anos a Festa não arrefeceu. Cresceu e se expandiu na região da Grande Florianópolis e para além, salvaguardando a sua memória cultural e evitando que enfraqueça a sua celebração.
Neste 19 de maio é o Domingo de Pentecostes, domingo da “pombinha”, da celebração do Espírito Santo. A bandeira do Divino,desde a Páscoa, realiza o seu périplo onde não falta o tambor,a viola, a rabeca, a cantoria dos foliões e o pedido de esmola para fazer a Festa em louvor ao Divino Espírito Santo.
Por todo Estado de Santa Catarina, é tempo do Espírito Santo.São os caminhos do Divino abertos por naus açorianas ou baleeiras aladas no distante século XVIII. Trilhá-los é reacender junto ao espelho da memória parte de um caminho do passado, e de agora, ancorados nos valores culturais e na religiosidade telúrica que entre signos sagrados e profanos, emerge com a força de resistência nascida da alma coletiva ou, intencionalmente, (re)inventada.
As mundividências de uma açorianidade sobrevivente por ritos ancestrais de oralidade encontram na Festa do Divino Espírito Santo o seu pulsar e o rosto de sua identidade. Eis, o R.G. da cultura açoriana temperado com o jeito maneiro de ser da nossa gente catarina.
Viva o Divino Espírito Santo!

Florianópolis,Ilha de Santa Catarina,15 de maio de 2013

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Lélia Pereira Nunes e Irene Maria Blayer Canadá,Brasil,Portugal,Açores Sun, 19 May 2013 04:47:18
<![CDATA[Guilherme Cabral, "Hymno do Espirito Santo" - Olegário Paz (c/áudio)]]>  

Açorianidade - 152 [Guilherme Cabral, "Hymno do Espirito Santo", Grupo C. das Lajes do Pico, "Hino do Espírito Santo"]

PorqueHojeEhSabado
2013.05.18

 









HYMNO DO ESPIRITO SANTO

 

POR OCASIÃO DA REPARTIÇÃO D'ESMOLAS

 

Alva pomba, que meiga appar'cestes
Ao Messias no rio Jordão;
Estendei vossas azas celestes
Sôbre os povos do órbe christão. 

CÔRO 

Vinde! oh vinde! entre nuvens de gloria,
Entre os anjos e bençãos d'amôr:
Entre os cantos d'eterna victoria
Que os ch'rubins Vos elevam, Senhor!

Quem aos pobres, seus braços estende,
Quem seus hombros encobre á nudez;
Cá no mundo, a ventura lhe rende,
E no céo, gloria eterna, talvez!

CÔRO

Vinde! etc.

Opulento! Entre-abri vosso cofre:
Se trasborda, é que tende de mais.
Vosso irmão tem de menos, e soffre,
Nada goza, e é só vós que gozaes.

CÔRO

Vinde! etc.

 Acudi com estas off'rendas,
Offertae-lh'as em nome de Deos;
Talvez sejam as unicas sendas
Que conduzam ao reino dos ceos. 

CÔRO

Vinde! etc.

Vinde irmãos! vinde todos, contrictos,
Uma esmola d'amôr offertar:
É dever consolar os afflictos,
E dos pobres, a fome matar.

CÔRO

Vinde! etc.

Traga rosas e ramos de louro,
Quem esmóla melhor, não tiver!
Pobre embora; esta offerta é thesouro,
Ganhará o brasão d'esmoler!

CÔRO

Vinde! oh vinde! entre nuvens de gloria,
Entre os anjos e bençãos d'amôr:
Entre os cantos d'eterna victoria
Que os ch'rubins, Vos elevam, Senhor!

 

 

Guilherme Read Cabral,
Em Pleno Atlantico,
Ponta Delgada, Tip. Açoriana, 1879.

 

 Guilherme Read Cabral (1821-1897), funcionário da Alfândega, político, poeta, natural de Portsmouth, Inglaterra, residiu e trabalhou nas cidades de Funchal (Madeira), Horta (ilha do Faial) e Ponta Delgada (ilha de S. Miguel) onde veio a falecer.





 



IMAGEM de Glocal Christianity (http://mattstone.blogs.com/)

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Irene Maria F. Blayer - Lelia Pereira Nunes Canadá,Brasil,Portugal,Açores Sat, 18 May 2013 12:57:13
<![CDATA[EXPOSIÇÃO "O SAGRADO NA OBRA DE VERA SABINO]]>
Será aberta na próxima segunda-feira 20/05/2013 a mostra ¨O Sagrado na Obra de Vera Sabino¨, no Espaço Cultural Governador Celso Ramos do BRDE, com curadoria do Artespazio Escritório de Arte.
Esta exposição concentra-se em uma das principais temáticas da artista: o sagrado. Obras sacras da artista enriquecem culturalmente o cenário de igrejas da ilha de Santa Catarina, como a Igreja de Nossa Senhora de Guadalupe, em Canasvieiras, a Igreja de Sant´Ana na praia da Armação e a Igreja de São Luiz na Agronômica, além de estar presente em muitas coleções particulares através das imagens de Santos, da procissão de Nosso Senhor dos Passos, da Festa do Divino e da Santa Ceia.

Presentes na mostra, quadros em sua técnica mais conhecida, acrílica sobre Eucatex, assim como trabalhos em nanquim sobre papel.

Imagens sacras do acervo pessoal da artista também estarão em exibição nesta mostra.

Vera Sabino busca referência nas imagens bizantinas dos ícones, sendo o uso de dourado frequente no fundo de suas imagens sacras. Outras soluções também empregadas pela artista são as referências arquitetônicas das igrejas locais criando perspectiva e o uso de elementos da natureza, presentes nas demais temáticas da carreira da artista.

O Artespazio Escritório de Arte com esta exposição faz um recorte na produção recente de Vera Sabino, reunindo peças de arte sacra de sua coleção e seus quadros que trazem em si a espiritualidade e a arte da pintora.

Artespazio Escritório de Arte

Antonio Macedo Fasanaro e Fabrício Tomazi Peixoto – marchands



O Sagrado na Obra de Vera Sabino

Abertura: 20 de maio, às 19 horas;

Visitação: 21 de maio a 07 de junho, das 9h às 19h, de segunda a sexta-feira;

Local: Espaço Cultural Governador Celso Ramos

Av. Hercílio Luz, 617 – Centro – Florianópolis

Curadoria: Artespazio Escritório de Arte

www.artespazio.com.br



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Lélia Pereira Nunes e Irene Maria Blayer Açores,Portugal,Brasil,Canadá Fri, 17 May 2013 03:52:35
<![CDATA[Originalidade de ESTILO e a impecável ESCRITA de Urbano Bettencourt por Lélia Pereira Nunes ]]>

Nesta noite, em sessão muito prestigida, aconteceu o lançamento do livro
« outros nomes outras guerras», na Livraria SolMar em Ponta Delgada,Açores.
Parabéns,Urbano Bettencourt e muito sucesso!
Originalidade de ESTILO e a impecável ESCRITA
          de Urbano Bettencourt

                      **
             Lélia Pereira Nunes


A editora Companhia das Ilhas anuncia para o mês de Maio a saída de mais um livro do escritor Urbano Bettencourt tendo por título :“outros nomes outras guerras”. Trata-se de breve antologia, que apresenta uma seleção de seus livros de poemas desde Raiz de Mágoa (1972), até o África frente e verso (2012). Inclui ainda uma recolha de quatro ou cinco inéditos.
Assim, quando a Primavera chegar e as Ilhas todas se cobrirem suavemente com suas flores exemplares, abundantes de beleza e cores como a Hortênsia famosa a demarcar caminhos e campos num lindo colar de pedras azuis, a Conteira amarela doce e perfumada e as Azáleas em tons de lilás a florir em profusão, sairá também o novo livro de Urbano Bettencourt, este escritor açoriano da Piedade do Pico que, sem qualquer concessão, ocupa um dos mais importantes espaços da Literatura Portuguesa contemporânea e, reconhecidamente, em outros espaços literários para além das fronteiras geográficas. No entanto, alargado seu horizonte não se distancia do torrão natal, na Ilha do Pico, dos seus afetos e memórias da Piedade e, também, de São Roque, Santo Amaro ou das pedras negras do Calhau. Lugares que um dia eu, segundo o próprio escreveu em 1995, “ atravessei o Atlântico para saber como é que nós nos temos perdido tanto e dispersado, à força de nos querermos agarrar a uns penedos atlânticos instáveis e fugazes”. Não sei se descobri o que ele sugeria nesta dedicatória assinada no seu O Gosto das Palavras II (1995) que afirma ser “um livrinho de ensaios e leituras afetivas” e que, de cara, chamei de “catecismo” pois me preparou para a maior comunhão da minha vida ao iniciar a viagem “para dentro” em descobertas infinitas na compreensão do olhar e do sentido de pertença a um espaço historial comum. Acredito até que já carregava nas veias uma certa inquietação insular por viver numa ilha ao sentir as tensões do cerco ilhéu ante o abraço aberto do Mundo ou entre o cárcere e o infinito, no poetar de J.Martins Garcia.
Devo-lhe muito do meu caminhar por essa atlanticidade literária que, no bailar das palavras, fui descobrindo e me apaixonando por este mundo de nove ilhas, que o mar encasula e liberta. Deslumbrei autores e suas obras, na expressão poética e ficcional da realidade ilhoa, um desfile sem fim de nomes ícones de uma literatura açoriana, vozes de diferentes histórias, pensamentos e gerações que Urbano Bettencourt tem dado a conhecer de forma absoluta e persistente.
Urbano Bettencourt é uma personalidade singular como professor circunspecto no exercício do magistério ou na postura do crítico literário sempre pronto a intervir, seja para aplaudir ou para negativar, impaciente com a mediocridade intelectual à superfície. Ao mesmo tempo, personifica o admirável escritor – poeta e cronista e, nesta condição, se esbalda numa deliciosa ironia, de um humor cativante e de uma malícia muitas vezes maquiada na linguagem refinada que surpreende como nos versos pícaros do poema Paisagem ante o fascinante Pico nevado: “ Um seio destes, tão perfeito/ e vasto,/ faz-se à medida do olhar guloso/e nada casto/de São Jorge,o santo de espada em riste”, uma definição aparentemente insuspeita de São Jorge, a ilha de cabelos verdes de corpo alto na poética de Carlos Faria.
Assim, de um lado, está o acadêmico, o professor de Literaturas – Portuguesa, Africanas de Expressão Portuguesa e Literatura Açoriana – da Universidade dos Açores e, também o crítico literário, o ensaísta, dono de um texto rigoroso, limpo e íntegro, numa posição de total frontalidade e de respeito ao criador e à criatura, a diversidade poética e as diferentes formas de expressão. Do outro, está o autor de ficção, de uma narrativa saborosa, vibrante, bem urdida, construída numa linguagem rica na sátira elegante, a falar de vivências, dos lugares, no descortinar da sua memória e do mundo-ilha. Está o poeta consistente, original e coerente nos seus pensamentos e no dúplice olhar marcado pelo viver insular. A poesia de Urbano Bettencourt, de singular mundividência, nos remete a distanciamentos ou a desejável aproximação, em intimidade com as Ilhas numa viagem para dentro de si e da terra – “da ilha e para ilha” (e para além). Produção literária profícua com marcas de intensa açorianidade que cabe bem adjetivar, dada a sua densidade e o estilo ímpar. Nos ensaios maiúsculos, na crítica literária corajosa, na prosa poética e mesmo na poesia, a questão da autenticidade da literatura açoriana está omnipresente em fortes e sentidas reflexões verbalizadas ou, sutilmente insinuadas.
Embora, não conheça o seu mais recente livro “outros nomes, outras guerras”, tenho a convicção que estamos diante de uma antologia de poemas onde a escrita se revela na sua essencialidade, contida é verdade, porém, a dizer-nos muito. Um jeito de escrever que traz a marca inconfundível, o sinal identitário de seu labor poético e o gosto das palavras. E que gosto! Poucas palavras, traços fortes e muita expressão. Esta é a característica da arte literária de Urbano Bettencourt – o de escrever o mais estritamente necessário e dizer tudo por inteiro, com o inegável talento e a competência de numa única frase criar uma narrativa completa sem floreios. Obras de poesia, narrativa e ensaios que são referenciais para quem ama a literatura e onde o leitor se identifica com o olhar do Autor.
Que paisagem apagarás (2010) e Africa Frente e Verso (2012),chegaram-nos como uma lufada de vento de verão, ora manso, suave, ora forte furioso a vasculhar tudo. Brisas ou ventanias do destino foi desta maneira que percebi a intensidade de seus dois últimos livros.
Em Que paisagem apagarás a suavidade de uma coletânea de textos de todo significante, prenhes de sentimentos no recriar percursos reais e imaginários e no alçar pontes por outras fronteiras, fortalecendo elos, aproximando realidades ou até saboreando o imprevisível chá da imaginação. A conversa aparentemente hilária, mas que deixa antever a fraternidade estendida dos pontos luminosos insulares da Macaronesia, corredores de mão dupla de culturas, histórias e de angústias compartidas no criativo diálogo entre Urbano de Sancho sobre “Las identidades fugaces” com um certo Juan Carlos Bettencourt das Canárias. É um livro delicioso como a brisa suave que nos afaga com sua prosa límpida ponteada de humor e muito leve no fluir compondo uma unidade paisagística exuberante que não se pode apagar. Abro um aparte, para citar a incrível secção“Breves, brevíssimas e (des)aforismos” assinada por um tal Ernesto Gregório e que Urbano Bettencourt passa a palavra, dando respostas com uma bem sacada e divertida sátira.
Que dizer de Africa frente e verso ? É o um vento forte que mexe com todo o sentir de uma geração, mesmo daqueles que não machucaram a carne e não choraram a guerra colonial. Do conteúdo e da capa (do pintor Urbano) meu olhar paira sobre uma África que é coração a pulsar, a gritar por liberdade e dignidade e, o conflito dos que, em nome da Pátria distante, defenderam a posse da terra e da gente colonizada. No verso,o coração ferido nas entranhas. Mais uma vez, a escrita de Urbano Bettencourt é de intervenção de respeito à condição humana que fez emergir nas águas cálidas do rio manchado de sangue e dos seculares embondeiros testemunhas de sua escrita na Guiné Bissau (1972-74) que a pena do poeta documenta na poesia e na prosa poética e as trouxe no seu regresso, como íntimo cheiro de África e, também, tatuado n`alma o amor pela terra morena que neste livro bendiz, esbraveja e chora: “[…] porque escrevo fogo/ e não resisto à fúria dos olhos das lanças/ dos laços/ em que se inscreve um país pisado/ lilás/violado em cada noite pelas bombas […]” (em porque escrevo raiva, p.18). Está patente no conjunto dos poemas e dos textos sobre a memória dos anos do flagelo da guerra e da violência, vividos por Urbano Bettencourt e por companheiros de farda, na visão da morte descrita no antológico texto Noite que, agora (re)publicado, fortalece a agudeza de seu olhar sobre uma realidade de 40 anos atrás e ainda muito presente.
Na nota de abertura “Voltando atrás” do África frente e verso, Urbano Bettencourt esclarece que estes os poemas e textos são posteriores ao seu primeiro livro “Raiz de Mágoa”, publicado na primavera de 1972. Será que teremos que aguardar uma nova Primavera para vê-lo (re)editado?
Nesta Primavera, em tom lilás das azáleas, brinda-nos Urbano Bettencourt com “outros nomes outras guerras” no seu estilo original e mitológico.

Florianópolis,19 de março de 2013



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(*) Foto sessão https://www.facebook.com/urbano.bettencourt

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Lélia Pereira Nunes e Irene Maria Blayer Canadá,Brasil,Portugal,Açores Thu, 16 May 2013 23:44:38
<![CDATA[O Surdo - Ana Cristina Alves]]>

O Surdo

Não sabia o que havia de pensar de Macau. Chegara com um bom contrato, daqueles que se media em patacas. A firma dera-lhe a possibilidade de ir para um dos apartamentos, incluídos no seu património, desde que aceitasse reparti-lo com um colega. A empresa era chinesa e portanto o colega seria chinês. Tudo bem. Aceitou a proposta. Seria interessante repartir o seu espaço com um chinês. Quantos se podiam gabar dessa sorte?

Para os portugueses, mas também para muitos europeus e americanos, os chineses continuavam a ser um povo exótico e distante, multiplicando-se em acções e comportamentos inesperados. Gabriel, ainda que com algumas luzes sobre a cultura chinesa, não escapava a muitas das ideias-feitas partilhadas pelos ocidentais.

Quando meteu a chave à porta, rezou a todos os santinhos para que o seu novo colega fosse uma pessoa acessível, civilizada, educada e tivesse mais não sei quantos requisitos.

Entrou a medo. Não fosse de lá saltar um dragão ou coisa que o valha. Fénix não havia de ser, pois sendo ele do sexo masculino, aos patrões nem lhes passaria pela cabeça dar-lhe o mesmo tecto que cobriria uma airosa chinesinha, uma daquelas que apareciam nos quadros antigos: cheia de delicadeza, meio esvoaçante e enroupada até não restar dúvidas sobre a sua compostura.

Abriu a porta a medo. Na sala, sentado numa cadeira de pau, almoçava calmamente um velho chinês. Pousou os pauzinhos numa pequena taça de porcelana sem qualquer sobressalto por ver um barbudo estrangeiro a irromper-lhe casa adentro. Devia ser muito idoso, pois já se lhe notavam as rugas. Ora quando os vincos da idade surgem nestes orientais, é porque os rostos se aproximam a galope do século.

Iria então repartir o apartamento com um centenário pejado de sabedoria. Cada palavra que proferisse seria uma pérola de um mistério, difícil de decifrar. Mas ele seria um aluno atento. Queria absorver cinco mil anos de história tão rápido quanto possível. Agradou-lhe tanto a ideia que colocou todos os dentes à mostra para que se notasse a sua boa disposição e foi o primeiro a romper o silêncio.

- Good evening, I am your new partner, may I say friend...My name is Gabriel.

- Boa noite. Chamo-me Lai Lin e pode falar comigo em Português.

- Ah, sabe Português? Em Macau é o primeiro chinês que encontro a falar Português, é fantástico...

- Em consideração pela minha provecta idade, compreendo que me chame jurássico.

- Perdão...

- Nem pense que lhe vou dar a mão, a menos que esteja mesmo necessitado. Por que havia de ser eu a transportar as malas para o seu quarto? A propósito é ao fundo, do lado direito. Não se engane por favor, pois embora Macau tenha uma certa fama, não costumo partilhar o leito com portugueses.

- Receio que esteja a haver um mal-entendido.

- Não me fiz compreendido? É porque está cá há pouco tempo. Não imagina o que muita gente diz de Macau.

- Até agora estive num hotel, onde havia poucas oportunidades para aprofundar conversas sobre a cidade. Porém imagino que tenha coisas boas e, como todas, algum mal.

- Macau tem muito sal, lá isso tem!

- Desculpe, sei que é chinês, e creio que local, quanto à terra, reconheço-lhe picante e sal, porém não será só maravilhas...

- Não, não tem muitas ilhas, apenas três: Macau, Taipa e Coloane. Sabe falar chinês?

- Aprendo há um mês.

- Ah, já sabe contar até três. Vai continuar?

- Se tiver paciência. Noto que está a desconversar. Sabe o que dizem: que esta terra é de perdição.

- É verdade, tem muita acção.

- Nos casinos?

- Hinos só nas Igrejas, e há imensas portuguesas.

- Não disse que era tudo mau nesta terra das maravilhas...

- Sei o que digo, não me ponho com fantasias. Aqui há gente de todas as idades e a grande maioria vive como deve ser.

- Queira desculpar, mas está-se a fazer tarde, vou deitar-me, pois aguarda-me amanhã um longo dia. Muito se trabalha nesta terra!

- O Gabriel está em guerra? Só se for consigo próprio. Teve um convite da nossa firma para vir até Macau, pagam-lhe pelo que faz e até lhe deram a possibilidade de repartir o apartamento com um dos funcionários mais antigos da firma. Quer melhor que isto?

- Não me estava a queixar, porém os chineses têm ritmos de trabalho constantes.

- Pode comer lagostas e lavagantes? Os chineses são fascinantes? Não é preciso exagerar. Gostamos de o ter cá, mas se utilizar grandes palavras, começamos a desconfiar.

- Perdoe-me a franqueza, o senhor ouve mal, por isso tem estado a trocar as minhas palavras.

- Tenho estado a revelar as suas palavras? Vá descansar, porque amanhã tem que se levantar cedo. Gosto de o receber cá em casa, tenho a certeza que ainda nos vamos divertir muito.

 

Gabriel procurou esboçar um sorriso, depois encaminhou-se lentamente para o quarto. Não estava assim tão certo que fosse fácil conviver com um surdo. De repente, foi assaltado por uma dúvida: Qual deles seria o surdo?

 

 Ana Cristina Alves- Professora Convidada do Departamento de Português da Universidade de Macau, onde lecciona as disciplinas de Questões Culturais na Tradução do Chinês/Português e Português Avançado. Colabora na Revista de Cultura e tem vários trabalhos publicados, entre os quais a tese de Doutoramento em versão encurtada, A Mulher na China (2007) e A Sabedoria Chinesa (2005), sendo ainda co-autora com Wang uoying de Contos da Terra do Dragão (2000) e Mitos e Lendas da Terra do Dragão (2010).

 

 

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Irene Maria F. Blayer -- Lelia Pereira Nunes Macau,Canadá,Brasil,Portugal,Açores Wed, 15 May 2013 17:03:43
<![CDATA[Deu no New York Times-- por Angela Dutra de Menezes]]> Uma ou duas palavras sobre o meu mais recente coleguinha, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, novo colunista para assuntos internacionais de um dos mais famosos jornais do mundo: o New York Times.

Claro que, como a maior parte das ôtoridades ocupadíssimas, ele terá um ghost-writter. Isso, em absoluto, não o desabona. A imensa maioria de presidentes e ex-presidentes, de todos os países que conheço, recorre a um redator de confiança. Não poderia ser de outra maneira. Ninguém imagina a mão de obra que é escrever duas linhas com alguma lógica. Apenas ser alfabetizado não resolve o problema. Para a produção de um bom texto há que se ter um pouco de talento, que, reconheço, os políticos não são obrigados a ter. Então, até aqui, nada me surpreende na nova atividade laboral de Mr. Lula.

Meu espanto começou com a reação dos petistas à novidade. Petistas são seres quase alienígenas, não se cansam de me surpreender. Pois não é que, em vez de se congratularem com o novo escriba internacional, eles logo saíram correndo para implicar com o FHC?  Cansei de ler, nas redes sociais, cutucados no doutor Cardoso. Doutor mesmo, por mérito próprio. Recebeu uns títulos Honoris Causa, que, claro, são importantes, mas não chegam a pesar em seu currículo de professor da Sorbonne. Fernando Henrique deve ter achado graça – até eu achei - nessa nova manifestação de inveja mal disfarçada. Vivendo e aprendendo: inclusive para a manifestação de sentimentos menos nobres, digamos assim, é necessário um pouco de inteligência. Numa boa, o que tem o FHC a ver com a coluna internacional do Lula? Gente mal resolvida, meu Deus. Uma boa análise resolveria essa dor de cotovelo. Afinal, o que importa se um ex-presidente é PhD em Sociologia e o outro, semi-analfabeto? Ambos são inteligentes, ambos foram eleitos pelo povo. Qual é o problema?

Palavras são perigosas, costumam trair os vaidosos. Basta ver a nossa presidente falando de improviso. Apesar dos indigitados esforços, Dilma não junta Lé com Cré, chega a dar pena. No improviso, Lula também nos ofereceu momentos memoráveis. Para quem duvida, está noYou Tube a sua hilária explicação sobre o aquecimento global “(..) se a Terra fosse plana, o sol bateria em todos os lugares, mas ela é redonda (...)”. Droga de Terra, não bastasse estar poluída, ainda inventou de ser redonda. Coisa chata, sério. Além de atrapalhar o discurso documpanhero, ela ainda atazana a cabeça de um monte de cientistas. Então, a Terra não poderia ser retangular, como queria Lula? Tudo ficaria tão mais fácil...

Mas o new-foca solfejou outras pérolas. Por exemplo, a citação a Napoleão, que ao invadir a China, teria declarado “este gigante adormecido, um dia despertará”. Ou, ainda, na visita à Namíbia, expressando, espantado, seu assombro com a cidade “tão limpinha, nem parece que estou na África”. Guardo uma lista imensa de bobagens alardeadas pelo recém-contratado doNew York Times. Uma de minhas distrações é reuni-las numa pasta, aberta exclusivamente para este fim. Acho que, um dia, irei publicá-las...

Com um profissional deste quilate, tão criativo, o jornalão norte-americano, sem dúvida, já acionou as suas defesas. Além do ghost writter, do tradutor do ghost writter, do revisor do ghost writter e de um coringa selecionado semanalmente – cada semana, um diferente - para não escapar nenhuma barbárie, as mães de todos os envolvidos nessa aventura lítero-sindical serão mantidas em cárcere privado. Se escapar alguma batata, a Livia Marini será acionada para matar a senhora genitora do responsável, com uma injeção de veneno na jugular. Mas será veneno brando, calminho, para a morte ser lenta. Vê lá se os irmãos do Norte perdoaminguinorâncias?  Graças a Deus, dona Lindu - que, coitada, nasceu analfabeta, uma raridade genética nunca antes acontecida na História do Universo – já está no céu. Ou seria ela a primeira a quem a vilã de Salve Jorge treinaria a sua mira de atirador de elite.

Enfim, é isso. Desejo a dom Lula todo o sucesso do mundo na nova carreira. Acho que ele descobrirá as maravilhas de ser jornalista. A emoção de lidar com a notícia, a realização inexplicável de ver o próprio texto - bem, neste caso, em termos – publicado, lido, comentado.

Assim, quem sabe, o PT descartará a idéia fixa de regular a Imprensa? Afinal, nos Estados Unidos da América, país de opiniões 100% livres, pegará mal para o New York Times a presença de um colunista obcecado em amordaçar os coleguinhas ao sul do Equador...

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Angela Dutra Menezes - jornalista, escritora. 

Publica suas cronicas semanalmente no Blog da Annamaria (http://www.annaramalho.com.br/news/index.php

 

 


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Lélia Pereira Nunes e Irene Maria Blayer Brasil,Canadá Tue, 14 May 2013 15:52:42
<![CDATA[A Europa medieval no Brasil via os Açores -- AMÍLCAR NEVES]]>
A Europa medieval no Brasil via os Açores

Se alguém estiver a me ler agora que não se deixe levar pela pompa e pretensão do título aí de cima. Não sou pesquisador, nem professor, muito menos um especialista no assunto, em qualquer assunto. Não passo de mero escrevinhador que junta palavras na tentativa de parir um conto, uma crônica, e talvez, se lhe estivesse ao alcance do talento ralo, uma novela de costumes, ou de maus costumes. Nada sério, pois. Nada a que se deva conceder maior atenção e cuidado.

Nesta condição é que, por descuido e inadvertidamente, convidaram-me para escrever, em forma de ficção, sobre o personagem real Franklin Cascaes, já partido desta vida. A ideia mestra era reunir 13 escritores atuantes na Ilha de Santa Catarina e, em 13 contos a serem ilustrados (como o foram) pelo Tércio da Gama, valerem-se necessariamente do dito Franklin como protagonista ou personagem importante da trama. O livro viria a intitular-se, como efetivamente ocorreu, 13 Cascaes. Por isso precisavam-se de 13 escritores e, como decerto só se encontrou uma dúzia deles, convocaram-me para o projeto como se convocava o pior jogador de futebol entre os putos para completar o time na função de... goleiro.


Assim que me tornei o goleiro dos 13.
Franklin não era um sujeito levado a sério no meio acadêmico. Nem no social. Não cursara a universidade. Nascera no continente em frente, numa região então rural à beira do mar. Era uma pessoa simples que saía a conversar com os pescadores descendentes dos açorianos que vieram colonizar Ilha, litoral e o Sul do Brasil. Não usava métodos científicos nessas conversas. Era um cara esforçadinho, nada mais.

O sapiente Júlio de Queiroz, um dos 13 do Cascaes, conta que, necessitado de tomar posse dos Açores, Portugal juntou gente de toda a Europa e de todas as condições: foram holandeses, belgas, franceses, poloneses, russos, judeus e até portugueses, gente mais ou menos culta, mais ou menos ética, mas falante do português (posto que Lisboa, como Centro do Mundo, juntava gente de todo o mundo) e levada a trabalhar para poder sobreviver longe do mundo. Com isso, esse pessoal carregou consigo o seu mundo mitológico que povoava e vida e as noites naquele fim de Idade Média.

Quando os Açores estavam prestes a se abrir ao mundo, duas coisas aconteceram: havia gente demais no arquipélago e faltava um bocado de gente na Ilha e no litoral próximo. Esperto, o governo português percebeu que a solução para os dois problemas consistia apenas em deslocar açorianos para Santa Catarina. Assim decidido, assim efetivado. O pessoal chegou com sua mitologia medieval ainda intacta e passou uns 200 anos isolado do mundo.

Quando a Ilha estava prestes a ser descoberta - e contaminada - pelo mundo, e a vila de Nossa Senhora do Desterro já passara a chamar-se cidade de Florianópolis, entra em cena o tal de Franklin Cascaes que sai a colher histórias, e a escrevê-las, a colher cenas, e a desenhá-las, a colher personagens, e a esculpi-los. Fez às suas custas, no derradeiro momento histórico, o que antropólogo algum, escritor algum, sociólogo algum, historiador algum, professor algum, doutor algum sequer pensou em fazer: salvar os usos e costumes trazidos à terra pelos açorianos, salvar a Europa medieval que, ao acaso, aportara no Brasil.

E assim é que estamos agora povoados por bruxas, boitatás, lobisomens e bandos de gente desta espécie. Graças ao sacerdócio de um Cascaes, que registrou também, muito mais do que as assombrações, a vida dura e simples dos pescadores, dos engenhos de farinha, açúcar e cachaça, das tradições religiosas católicas e dos fabricantes de utensílios de barro para o cotidiano ilhéu-açoriano.

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     Amilcar Neves
Escritor, natural de Tubarão, Sul do estado de Santa Catarina, Brasil.
Membro da Academia Catarinense de Letras. Escritor premiadíssimo,com inúmeros de livros de contos e novelas publicados. mantém uma coluna de crônica semanal no Diário Catarinense.
É membro da Academia catarinense de Letras. ]]>
Lélia Pereira Nunes e Irene Maria Blayer Açores,Brasil,Canadá Mon, 13 May 2013 16:20:01