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| AÇORIANIDADE 153 |
PorqueHojeEhSabado 2013.05.25 |
A partida
A carrinha afastava-se, seguida por uma onda de poeira. Para trás ficava os retalhos da infância e da adolescência, semeados naquela terra dourada. Pedro já era um homem. Por isso, partia para conquistar o pão lá longe, onde a vida parecia sorrir. Então porquê aquele nó na garganta? Aquela teia no estômago que lhe subia até ao peito e quase o estrangulava? Aquelas lágrimas secas que lhe nasciam e morriam nos olhos? A sua terra natal já ficara para trás. Mas cada vez mais parecia mais viva e presente na memória. As brincadeiras, os amigos, a família, o namorico com a Joana...
Não, não se podia esquecer que até era um felizardo. Trabalharia, pelo menos um ou dois anos, em Espanha, na construção civil. Ainda não assinara o contrato nem tinha garantias de nada, nem sequer conhecia as condições de trabalho, mas o representante do empreiteiro parecia honesto. E nos tempos que correm quem pode exigir muitas certezas?
Ele sempre vivera com pouco. Não quisera seguir os estudos e deixara a escola assim que havia terminado o 6° ano, portanto não podia esperar grandes oportunidades. Não é que não gostasse de estudar, mas também tinha de ajudar os pais no campo e às vezes guardar o gado. Depois, o cansaço apoderava-se dele e se pegava num livro as letras esquivavam-se-lhe numa nuvem de sono, como se fossem feitas de fumo ou de vento. Além disso, ninguém o queria para doutor, nem os pais o poderiam manter muito tempo na escola, pois as três irmãs mais novas já eram despesa suficiente.
Enfim, a terra era mais madrasta do que mãe, tudo dela era arrancado a ferros e apenas bastava para assegurar a subsistência... Por isso, o sonho de ter uma casa e uma família sua tinha de ser conquistado de outra maneira. Assim, quando viu o anúncio no jornal lá no café da terra, nem pensou duas vezes. E o espírito aventureiro que habitava na sua família veio à tona. Bastou lembrar-se que o avô, natural de Juromenha, havia sido contrabandista e falecera precisamente com o certeiro tiro impiedoso dum guarda. O pai também ainda contrabandeara, mas o susto acabara por desencorajá-lo. Mudou de terra e de vida. Por isso, ele até tinha sorte, ia trabalhar legalmente, sem correr risco de vida e ganhar bem - fora a promessa do empreiteiro. Pedro desconhecia ainda a matéria da qual poderiam ser tecidas as promessas, a substância volátil que as habitava convertendo-as tantas vezes em espuma ou vento.
A planície dormia ainda e o novo dia era, também ele, apenas o eco duma promessa. A viagem parecia interminável, sustentada pela ansiedade e pelo sonho. Já tinha ouvido, às vezes, histórias estranhas de gente que emigrava e era escravizada, maltratada, explorada... mas não, isso não lhe aconteceria, eram coisas que se diziam e o povo inventa tanto! Só aos outros acontecem certas desgraças, aos incautos, aos desprevenidos ou inconscientes.
Pedro rendeu-se ao cansaço e adormeceu durante muitas horas. Sonhava com o regresso, triunfante e endinheirado, com a construção de uma casa e o casamento com a Joana.
Ausente da realidade, nem se apercebeu de que havia atravessado a fronteira e chegara à terra de todas as promessas, junto ao barracão degradado que iria partilhar com outros oito homens, durante os próximos meses, entre a ilusão e o pesadelo, o suor, as lágrimas e os sonhos vencidos em cada poente.
Dora Nunes Gago
Dora Nunes Gago é professora de Literatura na Universidade de Macau (China), doutorada em Línguas e Literaturas Românicas Comparadas. Foi leitora do Instituto Camões em Montevideu (Uruguai), professora do ensino secundário e investigadora de pós-doutoramento da FCT na Universidade de Aveiro.Publicou: Planície de Memória (poesia, 1997); Sete Histórias de Gatos (em co-autoria com Arlinda Mártires), 1ªed. 2004, 2ª ed. 2005; A Sul da escrita (Prémio Nacional de Conto Manuel da Fonseca, 2007); Imagens do estrangeiro no Diário de Miguel Torga, Fundação Calouste Gulbenkian/FCT, 2008. Além disso, tem poemas, contos, artigos e ensaios em diversos jornais, revistas e antologias.
Este blogue é sobre a perspectiva da distância, o olhar de quem vive os Açores radicado na América do Norte, na Europa, no Brasil, ou em qualquer outra região. É escrito por personalidades de referência das nossas comunidades com ligações intensas ao arquipélago dos Açores.
Irene Maria F. Blayer was born in Velas, São Jorge, Azores, and lives in Niagara-on-the-Lake, Ontario, Canada. She holds a Ph.D. in Linguistics (1992) and is a Full Professor (Doutorada em linguística, é Professora Catedrática) at Brock University. Neste espaço procura-se a colaboração de colegas e amigos cujos textos, depoimentos, e outros -em Inglês, Português, Francês, ou Castelhano- sejam vozes que testemunhem a nossa 'narrativa' diaspórica, ou se remetam a uma pluralidade de encontros onde se enquadra um universo que contempla uma íntima proximidade e cumplicidade com o nosso imaginário cultural e identitário.
Lélia Pereira da Silva Nunes - Brasil
Nasceu em Tubarão, vive em Florianópolis, Ilha de Santa Catarina. Socióloga, Professora da Universidade Federal de Santa Catarina, aposentada, investigadora do Patrimônio Cultural Imaterial (experts/UNESCO,Mercosul), escritora e, sobretudo, uma apaixonada pelos Açores. Este é um espaço, sem limites nem fronteiras, aberto ao diálogo plural sobre as nossas comunidades. Um espaço que, aproximando geografias, reflete mundivivências a partir do "olhar distante e olhar de casa," alicerçado no vínculo afetivo e intelectual com os Açores. Vozes açorianas, onde quer que vivam, espalhadas pelo mundo e, aqui reunidas num grande abraço fraterno, se fazem ouvir. Azorean descent.-- Born in Tubarão(SC) and lives in Florianopolis, Santa Catarina Island,Brasil. She holds postgraduate degreees in Public Administration, and is an Associate Professor at Federal University of Santa Catarina.
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